domingo, 11 de maio de 2014

Mãe

Desde bem cedinho a mãe lidava na cozinha, numa profusão de pratos, panelas e vasilhames. A casa toda recendia a diversos e apetitosos aromas das guloseimas que preparava para esse dia. No Dia das Mães, uma velha mãe trabalhava mais que em qualquer outro dia. Afinal, sua prole viria passar o domingo com ela. E como não podia deixar de ser, na lógica clara de uma mãe, era o dia de preparar o prato preferido de cada um dos filhos. Presente para mãe, era acarinhar a seus filhos, mesmo no seu dia. Filhos com gênios, temperamentos, convicções e gostos por vezes tão distintos, que nem pareciam terem sido gerados na mesma barriga, pensa a mãe, ajeitando algumas almofadas no sofá. A casa estava em ordem. Bem diferente dos tempos em que eles eram crianças. Controlar o rebuliço e as travessuras daquela escadinha de arteiros, quase a levara a loucura. Por vezes, chegara a pensar em desistir. Mas ser mãe é para vida inteira, e ainda além. Hoje tinha saudades do tempo em que eram pequenos e bagunceiros, mas estavam todos por perto, ao alcance de suas mãos - ou do seu chinelo! Nesse domingo das mães, sua pequenina não viria, suspira. Um oceano inteiro as separava. Seria uma ausência sentida na mesa do almoço, e um vazio enorme no seu coração de mãe. A distância que separa pessoas, para uma mãe chamava-se saudade. E saudade de mãe é permanente. Começa no dia em que o filho sai de seu ventre. Continua quando ele começa a caminhar e aprende, lentamente, a abandonar a proteção do seu colo. E culmina quando ele, enfim, levanta voo e passa a ser dono de sua vida, deixando na mãe a eterna saudade de quando o colo da mãe era todo o mundo de sua criança. Ensinar um filho a caminhar e seguir sozinho, às vezes para longe, seu caminho, era a tarefa mais difícil e dolorida de uma mãe. E ser mãe é aprender a perder um pouquinho de si cada vez que um filho cresce, amadurece e faz suas próprias conquistas. As conquistas de um filho geram orgulho e também saudades em uma mãe. Coisas que só mãe entende, reflete, remexendo nas panelas.
Para adoçar a vida das mães, havia os netos! Logo, logo, sua neta chegaria, como um furacão de energia e alegria a adentrar pela casa. Em pouco tempo colocaria fim na tediosa ordem das almofadas colocadas no sofá. Com que expectativa essa avó esperava para ver a profusão de brinquedos espalhados pelo chão. Depois dos sessenta, vejam só, sentia-se alegre e satisfeita com a mesma bagunça de crianças que antigamente a enlouqueciam! Coisa de avó, que só avó entende – motivo de piadinhas de seus filhos adultos, diferentes em quase tudo, mas todos igualmente debochados e sarcásticos. Em breve teria mais uma netinha. Sua pequenina, lá do outro lado do mundo, em poucos dias lhe daria outra neta. Gostaria de estar com ela no momento do parto. Afagá-la em suas dores naturais. Consolá-la no seu primeiro momento de saudade. Mas ser mãe, é estar presente, mesmo estando distante. E saber que o afeto e os ensinamentos dados na infância e inicio da juventude, são legados que ficam marcados para sempre no caráter e no cerne de cada um de seus filhos. Essa é a única herança de verdadeiro valor que uma mãe pode deixar aos filhos. Coisa que só filho entende. E se todos nós, filhos, não dizemos ou dissemos a nossas mães, estejam elas presentes ou já ausentes, de sua importância e valor inquestionável em nossas vidas, saibam todas que sabemos. Sempre soubemos. Se deixamos de falar ou demonstrar, é, ou foi, por pura imaturidade, receio de nos expor, ou mera covardia de sentir. Coisas que nenhuma mãe sente ou compreende. Coisas, que com vergonha, nós, filhos, nos desculpamos. Obrigada mãe! E desculpa toda a bagunça e confusão que fizemos ou ainda fazemos. Parabéns pelo seu dia!


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