Poliana adentra no salão real com sua eterna pose altiva e
aristocrática. Com o nariz empinadinho, no mais legítimo orgulho da realeza,
anuncia para sua constelação de bobos e pajens:
- Vocês viram só, seus molóides, como se administra uma
revolta popular? Aprendam comigo, a rainha do ilusionismo e das multidões. –
vangloria-se sua alteza, para o cada vez mais perdido e acuado grupo de
estrelas decadentes.
- Você conseguiu conter os manifestantes, Poliana?! –
pergunta, aliviado, um companheiro de clã.
- Como você fez isso, Poliana, se nem a Rainha Mãe conseguiu
essa façanha? – surpreende-se um bobo da corte - Aliás, a rainha mãe está mais
mal assessorada que você, alteza. Nunca antes na história do Gigante Adormecido,
um soberano conseguiu enrolar tanto. Nem a língua. Sorte que temos o futebol
para ofuscar tanta asneira dita em rede nacional.
- A Rainha Mãe vai ter de pagar por suas más companhias e
assessorias, como eu, talvez um dia, tenha de pagar pelas minhas. – reflete
Poliana, num lapso momentâneo de autocrítica. – O que importa nesse momento de
crise aguda de moralidade coletiva, é driblarmos a fúria das massas.
- E como você, magnânima, conseguiu isso? – pergunta um dos
presentes.
- Eu ainda não consegui. Mas está tudo encaminhado para isso.
Com a ajuda do meu serviço de marketing, mídia e maquiagem, patrocinada por
recursos públicos, estarei anunciando, com muito alarido, que não haverá
aumento das passagens do transporte coletivo no reino até a Copa do Mundo de
2014! Uma reivindicação histórica de meus adoráveis e sofridos súditos. Um
reinado democrático e participativo como o nosso, precisa ouvir a voz das ruas
e atender ao clamor das massas! – exclama, emocionada, a sempre sensível
soberana.
- A solução que você vai apresentar vai ser essa, alteza? Não
reajustar as passagens? – indaga um dos pajens.
- Isso mesmo! Não é uma idéia brilhante e inovadora? Vocês
conhecem algum monarca nesse país que tenha tido uma idéia tão genial como
essa? – pergunta a rainha, com o peito estufado de orgulho.
- Na verdade, alteza – começa, constrangido, um dos
companheiros presentes – pelo menos uma dezena de reis e imperadores fizeram o
mesmo anúncio, só nessa semana.
- Gente sem criatividade que ousam plagiar Poliana! –
revolta-se a monarca, tentando encerrar o rumo desconfortável da discussão.
- Mas o preço das passagens no nosso reino não é reajustado
há três anos, rainha. Não parece ser essa a motivação principal dos
manifestantes. Eles pedem mais qualidade no transporte, isso sim, além de
muitas outras coisas, bem mais complexas. – pondera um dos bobos.
- Se querem transporte de qualidade, que andem de automóvel,
ora bolas! Ou melhor. Com toda essa buraqueira, que nós democraticamente distribuímos
por todo o reino, que andem de trator, isso sim! Esse povinho anda muito exigente
e petulante com essa onda reacionária de rebelião das elites. – afirma a
afetada e convicta majestade.
- A questão parece ser mais profunda, rainha. – continua o
companheiro, preocupado – Não acredito que essa medida possa contentar os
revoltadinhos de plantão. O povo que foi para as ruas exige mais. Mais saúde e
educação. Mais moralidade no trato com a coisa pública. E eles são muitos!
- Moralistas! Temos de combater esses moralistazinhos sem
partido. Vamos direcionar esses revolucionários das grandes causas para a
simplicidade das causas de fácil digestão. Não podemos permitir que essa onda
de protestos, sem cabimento ou cabresto, reavive a memória fraca de nossos
súditos. – alerta a magnânima.
- Memória, alteza? – pergunta um confuso aliado real.
- Claro, seu estúpido! Já pensou se esses manifestantes
resolvem relembrar todas nossas trapalhadas no poder? O desvio de pedras. A
máfia dos pardais. As falsas impressões que nós pagamos com dinheiro público.
Os alvarás para a companheirada. Os rolos e enrolos no estacionamento rotativo.
Seria uma catástrofe sem precedentes e de conseqüências nefastas para nós.
- Nem nos fale rainha. – suspira um dos bobos, sudorético. –
Sem falar em todas as falcatruazinhas que todos suspeitam, mas ninguém
conseguiu provar ainda.
- E se todo esse barulho incomodar Justiça e aquela velha
caquética resolver tirar a bunda de cima do meu processo? Já pensaram no que
vai ser de mim? Eu posso ser novamente caçada como uma lebre! Vocês pensaram na
desgraça que seria um processo democrático de escolha de um novo monarca com
toda essa onda utópica e sem fundamento de moralidade?
- Seria o nosso fim! – apavora-se o coeso grupo.
- Isso mesmo! Seria nossa extinção. Por isso, companheirada,
precisamos usar todos os meios para alcançar nosso único fim: continuar no
poder. Vamos vender na mídia, nas redes sociais e em nossos outdoors, que tudo
que o povo queria e precisava era que as tarifas do transporte público
continuassem as mesmas. Nem que para isso vocês precisem andar de ônibus, a
partir de agora. – ordena Poliana.
- Andar de ônibus?! Nós?! Você ficou louca, Poliana. Eu nunca
entrei num trambolho daqueles na vida. Nem nos tempos de faculdade. Eu sempre
fui de Van! – escandaliza-se um ortodoxo membro do clã, abanando-se com a boina
do Che Guevara.
-Corta essa, Poliana! Eu não vou deixar meu Audi A3 com teto
solar enferrujando na garagem, nem mesmo pela revolução socialista! –
indigna-se outra rubra estrela.
- Fala sério, rainha! Como é que eu vou me acomodar naqueles
bancos apertados e com toda aquela gentarada suada, no final do dia?! –
ergue-se, com dificuldade, um volumoso companheiro da facção mais socialista do
clã de Poliana. - E nem tem parada na frente do MacDonald’s! Eu não passo um
dia sem um Big Mac e uma Coca gigante. Eu sou fiel aos meus ideais! Não posso
ser conivente com esse modelo capitalista que privilegia as oligarquias e os
monopólios dos donos de empresas de transporte coletivo. – conclui, coerente
como sempre, a boa e velha estrela.
- Vocês têm de me ajudar! É por nossa justa causa! Pela
sustentabilidade dos seus carguinhos!
– exaspera-se a rainha.
- A causa é justa, Poliana. Mas não precisa radicalizar! Nós
podemos ir para as ruas, com bandeiras e ideologias fajutas. Mas andar de
ônibus é um exagero! – manifesta-se outro representante dos movimentos sociais.
- Está bem! – concorda Poliana, dando-se por vencida. – Vocês
não precisam andar nos transportes públicos como o resto dos contribuintes. Mas
vão ter de convencer a torcida de que o jogo foi ganho pelo povo. E sem
impedimento ou jogada desleal. E que a voz de Poliana é a voz de Deus e
representa legitimamente o anseio dos manifestantes e da sociedade.
- Fechado! Vamos pro facebook, galera! Manipular as massas de
alienados representantes das elites capitalistas! Moralistas sem ideologia
alguma. Viva Chávez e Fidel! Abaixo a ditadura da direita sonolenta! Fora os hipócritas
do ManiFest – o movimento
dos coxinhas reacionários representantes da direita golpista! – urra o fanático
comunista, sempre fiel as causas e convicções socialistas – “Se fosse, pelo
menos, o movimento dos hambúrgueres...” – pensa, entre uma mordida e outra de
seu Big Mac, pago com o suado e merecido salário de proletário e explorado
assessor parlamentar.
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