domingo, 6 de novembro de 2016

Poliana, igual do começo ao fim

E no entardecer do reinado de Poliana e sua trupe, tudo seguia como sempre fora. A preocupação maior de nossa monarca continuava a ser propaganda e marketing. Mesmo a apenas poucas semanas de deixar o trono e entregar a coroa, Poliana tentava emplacar mais alguns milhões de recursos públicos para propagandear os seus feitos. Tudo repetitivamente cansativo e fora de prumo. Poliana, a rainha popstar, não conseguira aprender durante todo o seu espetaculoso reinado que seus súditos demonstravam claro e progressivo desinteresse pela pirotecnia de seus comerciais. Houvesse sua alteza investido mais em obras concretas e menos em banners e mídia ilusória talvez tivesse ela e seu povo mais motivos para comemorar.

E se era verdade que a maior praga que nossa rainha rogara sobre o reino por tantos anos, os famigerados buracos no asfalto, haviam rapidamente minguado nos últimos meses, também eram verdadeiras piadas os métodos adotados nas operações tapa-buracos. A mistura farelenta usada para preencher as crateras lembrava muito esterco de vaca. Mas o carro-chefe era a compactação do material, com os serviçais do palácio ziguezagueando pelas ruas na tentativa de acertar os pneus nos buracos recém cobertos. Hilariante. Os operários designados para essa inglória tarefa deveriam receber adicional por exposição pública ao ridículo. Mais uma invencionice da criativa corte real de Poliana.

Para não fugir da mesmice, as audiências públicas de sua alteza, feitas para trazer ao conhecimento público assuntos de relevância para o reino, como sempre eram cercadas de profundo mistério. Só não aconteciam na calada da noite, pois a noite era possível que o quórum fosse maior. E nesses democráticos eventos, sempre tão representativos, bastava um só questionamento para encerrar a reunião. Melhor adiar a audiência para outra data e horário, e certificar-se de que ninguém com um pouco de cérebro compareça. Participação popular em reinados socialistas só funcionam quando a plateia é adestrada. Assim nos ensinou Poliana.

Uma lástima que nossa rainha e sua vastíssima corte demonstrem tão pouco apreço pelo claro e o concreto. O gosto pelo duvidoso sempre sombreara seu reinado. Questão de paladar, provavelmente. Pois, nem mesmo o velho projeto de um novo distrito para as indústrias locais, insistentemente alardeado pelo time de Poliana na última disputa em Horário Eleitoral, conseguirá sair limpo do papel. Na ânsia de entregar a área, mais prometida que terra santa, antes do término de seu reinado, sua alteza abrira mão de tudo. Até da vergonha. Pretendia oferecer aos empresários o imenso terreno. E apenas isso. Nada de água, eletricidade ou esgoto. Afinal, quem precisa dessas perfumarias? O que realmente importa é a belíssima propaganda que isso tudo vai gerar. O photoshop conserta tudo, e propaganda não tem cheiro. E Poliana não tem olfato. O odor ocre das questionáveis e putrefatas decisões tomadas por nossa monarca ao longo de seu reinado devem ter lhe arruinado o aparelho olfativo. Questão de sobrevivência, sem dúvida. Seria uma temeridade ter de conviver por toda a vida com o próprio cheiro.

 

 

domingo, 23 de outubro de 2016

O dilema dos ratos

E, em Gigante Adormecido, estava instalado o pânico. As filas nos luxuosos banheiros parlamentares quase se igualavam as das emergências superlotadas do sistema público de saúde. O trânsito intestinal dos congressistas trabalhava tão rápido como rápidas sempre foram as boas intenções dessa gente ao se locupletarem com a coisa pública. O mau cheiro impregnava o ambiente, mas ninguém notava, acostumados que estavam com o próprio odor.

Pois não é que o homem fora realmente preso. Não aquele, o chefe maior, este ainda roía as unhas em expectativa, e dormia de sapatos sem cadarço. Quem baixara o cadeião fora outro, desta vez. O antigo todo poderoso do parlamento. Algoz implacável da decapitada Rainha Mãe. O queridinho dos coxinhas. Inimigo número um da companheirada. Os companheiros o detestavam, com absoluta certeza. Não pela sua questionadíssima moral, ou por seu fisiologismo torpe. Afinal, essas qualidades foram úteis ao grande clã estrelado por mais de uma década, e apenas convenientemente esquecidas nos últimos tempos. Ter rancorosamente mordido a corda e se voltado contra a, até então, ofuscante estrela vermelha, era o maior pecado do sujeito.

E a esquerdalha sequer podia comemorar com o merecido entusiasmo que o momento exigia. O homem caiu, e sua queda prometia derrubar todo Parlamento. A companheirada, a exemplo de seu messias, o Ilusionista, temia muito mais essa ruína do que a da perseguida Rainha Mãe. Este, para infelicidade de muitos, sabia falar. E se decidir abrir a boca, faltarão celas no gigantesco reino da corrupção e das jabuticabas. Melhor mandar cercar o Parlamento, transformando-o em presídio de segurança máxima.

E Justiça?! Ah, Justiça, criatura cruel e desumana! Aniquilara, de um só golpe, todo o discurso vitimista tão bem elaborado pela companheirada. Justiça, que impiedosamente perseguia o virtuoso e bem intencionado clã estrelado, resolvera colocar a corda no pescoço justamente do carrasco mor dos companheiros. Assim, não havia mimimi que se sustentasse. Maldita Justiça! – continuam bradando os seguidores da estrela, cada vez mais apalermados, mergulhados em contradições, como de hábito.

E assim, segue a vida no pitoresco reino de Gigante Adormecido. Lugar onde a bandeira da moralidade e da coerência é golpismo. E onde o roubo e a corrupção não têm cheiro, têm cor, e a sem-vergonhice escarlate é mais doce e digna que qualquer outra. Quem não concordar é golpista.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Trinca de reis

Sentados ao redor de uma mesa sem arestas estavam os três. Três antigos reis desse reino. Décadas de história em um mesmo ambiente. Um passado de divergências e disputas, agora deixado de lado. Era outro o presente. Eram outras as intenções. E os interesses. Três poderosas forças que mostraram novamente seu poder. Unidos, como temiam os adversários, e desacreditaram tantos desavisados e incautos. Vencedores. Agora, ainda mais do que antes. Era hora de comemorar a vitória. Mas, para esses velhos, as comemorações eram supérfluas, o jogo estava apenas começando.

- Bati! – comemora Chucrute, o ariano, com o largo sorriso que o caracterizava. – Uma bela cartada! Com uma Dama, doze pontos, derrubei outra dama, a das treze estrelas! – festeja com seu jeitão efusivo.

- Tinha eu, meu velho e estimado amigo, a indubitável certeza de que lograríamos êxito nesse tortuoso e competitivo caminho. Congratulações! – parabeniza o Alquimista, com voz cadenciada.

- Doze pontos. Foi quase uma zebra. Mas você conseguiu alemão. – acrescente Zangão - o sisudo - econômico até nas comemorações.

- Pois não teria conseguido sem vocês dois, meus velhos novos amigos! – exulta Chucrute, abraçando calorosamente os outros dois.

- Tá, tá, tá... – resmunga Zangão, desvencilhando-se do aperto. – A turnê a Horário eleitoral já acabou. Chega de tanto abraço.

- Me recordo como se hoje fosse, prezado alemão, do dia em que o acolhi em meus braços, décadas atrás. Você, tão jovem na época, mas tão repleto de vontades. E deveras questionador. – relembra o Alquimista, perdido em suas memórias. – Você me azucrinava tanto, Chucrute, que fui obrigado a lhe arrumar um cargo que o mantivesse algumas horas por dia bem distante de mim. Pois minha paz de espírito de outrora, hoje resultou em bons frutos.

- É. Questionador, beijoqueiro e teimoso. Excêntrica mistura para um rei. – constata o sisudo, rosnando de lado.

- Teimoso não, Zangão! – sorri Chucrute, apoiando o braço nos ombros do outro. – Sou flexível como bambu. O bambu se curva frente aos maiores vendavais, e retorna sempre e firme à posição original. Paciência e determinação. Vocês sabiam que, após plantada, a semente de bambu leva cinco anos até começar a brotar? E que a curvatura de um bambu pode chegar a...

- Tá bom, tá bom! – interrompe Zangão, o que prometia ser uma aula de botânica e espiritualidade Chinesa. – Você não é teimoso, é só persistente.

- De fato, amigo ariano, sua persistência causa inveja a qualquer de seus adversários. Como os bambus, você ficou soterrado em cinco disputas. Agora, finalmente brotou. Que seus brotos sejam tenros e rígidos, como sempre tenro é o poder, eu bem sei. – discorre o Alquimista, nostálgico.

- Eu tenho, amigos Zangão e Alquimista, a mais límpida e clara convicção de que como novo rei, humildemente escolhido pelo meu querido e estimado povo, precisarei atender as necessidades urgentes da população. Não posso esquecer, e não esquecerei, do pedido que me fez a senhora Stanislava Shryghinskwiscky – relata o ariano, com pronúncia perfeita. – para que fossem agilizados seus procedimentos cirúrgicos, marcados para 2023. – emociona-se o rei eleito. – Nem poderei dar as costas à pequena Maykelen Ketlhyin Pamella das Dores, que aos dez anos de idade me implorou por uma castração de seu gato Mocotó. E, lembro como se fosse hoje, e meus olhos se enchem de lágrimas – discorre Chucrute, lacrimejante. – do seu Astrogildo Ezequiel, filho da dona Secundina, neto de Primeirina, vizinho do casal Setembrino e Agostina, que são donos dos poodles Sansão e Dalila, que moram na rua...

- Aff! – resmunga Zangão, balançando a cabeça e deixando de ouvir a extensa explanação do Alemão – Isso é alguma doença? – pergunta ao Alquimista.

- É uma memória prodigiosa e invejável. E uma chatice incontestável. – responde o doutor, sucinto.

- Mas vai melhorar com o tempo? – indaga o sisudo.

- Não. Vai piorar. – prognostica o Alquimista, lacônico.

- Como foi que nos metemos nisso, Alquimista? – pergunta Zangão, com as mãos na cabeça, observando seu mais novo pupilo que continuava a discorrer nomes, sobrenomes e endereços.

- Parecia uma auspiciosa ideia na época. – reponde o outro, agora um tanto titubeante.

- Tomara que a memória dele seja boa também em cifras, finanças e orçamentos. – torce comedidamente Zangão.

- Tomara que ele não esqueça de meu apoio e minhas finanças. – sussurra o Alquimista, pensativamente.

- E quais serão seus próximos passos, Chucrute? – indaga Zangão, preocupado.

- Caro ex-rei, Zangão. Preciso retribuir a confiança e o afeto em mim depositados pelo amado povo desse reino. Se por mil anos trabalhasse não seria suficiente para pagar o carinho que recebi nessas últimas semanas.

- Você não vai ter mil anos, ariano. Apenas quatro. E carinho, beijos e abraços não vão resolver os problemas dos contribuintes. Trate de pensar em receitas e despesas. Em corte de gastos e na economicidade do dinheiro público. – aconselha o sisudo, objetivo como sempre.

- Sim, sim! – gargalha Chucrute, abraçando fortemente o outro. – Você já me disse isso tantas vezes nos últimos meses, Zangão, que mesmo que eu tivesse a memória de um peixinho de aquário, eu já teria decorado. Por falar nisso, vocês sabiam que pesquisadores australianos demonstraram que um peixe pode se lembrar de seus predadores por até um ano, e que...

- Tá bom! Tá bom! – corta Zangão uma outra aula, dessa vez de biologia marinha. – Espero que você se lembre de seus erros do passado, e que não torne a repeti-los.

- E evite, fraterno Chucrute, as más companhias de outros tempos. Sua inexorável persistência em cercar-se de amizades questionáveis já lhe renderam suficientes dissabores e derrocadas. – relembra o Alquimista.

- Sou, meus dois amigos, hoje, um outro homem. Amadureci muito nesses dezesseis anos. Hoje sou firme como um carvalho! – responde o outro, com seriedade.

- De repolho à carvalho, é uma evolução considerável. – constata Zangão, com um discreto torcer de lábios, provavelmente um sorriso de escárnio.

- Vocês dois são meus mais fiéis amigos, estou certo disso. – afirma Chucrute. -  E espero contar com seus conselhos durante meu reinado. Aprendi muito com vocês nesse tempo, e me dedicarei a aprender cada vez mais. Serei um aluno aplicado. Suas experiências abrilhantarão meu governo. Ao lembrar da confiança com que vocês me presentearam me surgem lágrimas nos olhos. – continua o ariano, com voz embargada e o rosto molhado.

- Toma isso, seu chorão! – resmunga zangão, oferecendo um lenço de tergal ao outro. A essas alturas da trajetória já estava acostumado com as frequentes enxurradas de lágrimas de seu novo amigo.

Depois de assoar o nariz, secar os olhos e devolver o lenço ranhento ao sisudo, acrescenta Chucrute: - Eu estava pensando ... Tenho apenas uns dois amigos da velha guarda, que talvez eu convide para compor meu reinado. Eles estão há anos longe do reino.  O Santinho me telefonou para me parabenizar pela vitória e tem insistido em voltar. Então eu pensei em...

- Eu lhe arranco essas orelhas vermelhas, seu alemão teimoso! – grita Zangão, em um incomum arroubo de fúria.

- E eu lhe aplico uma mistura química que lhe fará hibernar por mais duas décadas! – completa o Alquimista, igualmente irritado.

- Hahaha! – gargalha Chucrute, se contorcendo em zombaria. – Estou brincando! Só brincando! Vocês precisavam ver as caras que fizeram. – diverte-se o ariano, com o rosto rubro, abraçando entusiasticamente os dois homens e depositando beijos estalados nas calvas cabeças.

- Brincadeira sem graça! – reclama Zangão, desprendendo-se do abraço e marchando com passos firmes para a saída. – Quase me mata do coração! Vou ter de procurar um cardiologista. E você sabe o preço de uma consulta?! Custa os olhos da cara! – continua grunhindo o sisudo.

- E eu vou precisar de um calmante depois desse susto! – desabafa o Alquimista, acompanhando Zangão para fora do recinto.

Ainda sorrindo, Chucrute segue os amigos, abandonando também o local. O trono o espera, logo adiante. Bem sabe o alemão que a desconfiança de muitos paira sobre sua cabeça e seu reinado. Que o futuro rei, escolhido para ser a mudança, saiba honrar não suas alianças, mas o crédito que lhe foi concedido por seu povo. Honrar ao povo, é o que se espera de um rei. Que as lições do passado tenham sido aprendidas, e não apenas decoradas.

sábado, 8 de outubro de 2016

O futuro das estrelas

Na sede do time de Poliana, o clima era, inicialmente, de comoção. A surpresa não estava em terem perdido a disputa, mas no inacreditável placar final. Não era possível nadar tanto e morrer a sete braçadas da praia. Poucos minutos após o choque inicial, uma enxurrada de gritos e acusações tomara conta do ambiente. A derrota torna todos irracionais. Alguns mais irracionais que outros.

Era preciso encontrar culpados. Uns não se esforçaram o suficiente. Outros, que deviam ter ficado escondidos, se mostraram mais do que o povo gostaria de assistir. Ao invés de uma imensa e barulhenta carreata, deveriam ter batido um pouco mais de pernas nos subúrbios na véspera da disputa. As malas de dinheiro escuso não foram suficientes desta vez. Faltou pouco. Poucos trocados.

Curiosamente alheia ao clima tenso do local, estava Poliana. Sentada a um canto, saboreava lentamente seus adorados bombons de amarula. Os olhinhos de biscuit passeavam distraidamente pelos presentes. Observava seus bobos da corte. Alguns chorosos. Outros inflamados. Tantos inertes e alienados, como de costume. “Não sei como aturei essa gente sem vontade por tanto tempo.”, pensava a sempre dinâmica monarca, enquanto ouvia as lamúrias de seus pares.

- Não consegui! Não consegui! – choraminga Santo Jorge, com as mãos na cabeça, lamentando a vaga perdida na câmara de vendilhões, onde sequer chegara a esquentar a cadeira já que preferira pedalar – em ritmo lento – as midiáticas obras de Poliana. Não conseguia entender o que dera errado. Nos tempos em que fora maestro da Orquestra Partidária (OP) conquistara multidões com churrasqueiras e canchas de bocha nos festivais pirotécnicos da OP. Pois agora, com feitos mais notáveis e sólidos como ciclofaixa não conseguira agradar ao povo. Falta de consciência ecológica e espírito desportista dessa gente, com certeza.

- Você não tem do que reclamar! – resmunga Golesminha, cabisbaixo. – Ainda lhe resta aquela vaga na Escola de Ensino Superior que o contribuinte pagou e você nunca ocupou. E eu?! – exclama, emocionado. – O que será de mim? O que eu vou fazer? Vou viver do quê? – pergunta à Poliana, buscando uma solução para a insolúvel questão.

- Trabalhar, quem sabe. – reponde Poliana, placidamente, desembrulhando mais um bombom.

- Trabalhar? – indaga Golesminha, empalidecendo. – Trabalhar? – repete, a amorfa criatura, como se tentasse entender o significado da palavra.  – Mas eu nunca fiz isso na vida, Poliana! Eu sei falar bastante sobre exploração do proletariado. Decorei um monte dessas baboseiras para seduzir trabalhador de verdade nos tempos de sindicalista. E sei como atrapalhar a vida de quem quer trabalhar, mas... trabalhar?! – desespera-se ainda mais o homem.

- Você pode voltar a suas origens. Não de sindicalista, é claro. Com o desemprego correndo solto, já tem mais sindicalista parasitando do que gente trabalhando. Volta para agricultura. É a sua cara! – sugere a rainha, tentando conter o riso ao ver o pobre Golesminha empalidecer ainda mais.

- Pra colônia?!! – grita o outro com voz trêmula. – Plantar? Colher? Eu jamais plantei um pé de alface na vida, Poliana! Não sei a diferença entre uma mandioca e um pepino. Ou entre um porco e um gato! Meu passado de homem do campo era só para fazer bonito nas propagandas. Eu só sei plantar ideologias para colher dinheiro fácil. É o meu fim! – suspira.

- Não se menospreze, Golesma. Sua perícia em manejar supercola é reconhecida em toda região. Dizem por aí que você jamais colou os dedos. Uma façanha! Toda essa habilidade deve lhe credenciar para algum emprego, não é? – acrescenta Poliana, sarcástica.

- Eu sei como você está se sentindo, companheiro. – interrompe outro ortodoxo socialista, soluçante. Com o corpanzil embrulhado em uma imensa bandeira vermelha, secava as lágrimas e assoava o nariz na camiseta de Guevara. – Os reaça tomaram o poder! É o fim de um sonho. Mas não podemos nos submeter ao domínio opressor do capitalismo! Essas mãos calejadas de abanar bandeirinhas, e esse corpão sustentado com fast food e Coca-Cola pagos com dinheiro público, jamais servirão a um patrão! Não vai ter trabalho, vai ter luta! – grita com o punho erguido.

- E você vai viver de quê? – pergunta Golesminha, empático com a situação do outro.

- Da aposentadoria da mamãezinha, é claro. Só aceito dinheiro se for do Estado. Preciso ser fiel as minhas convicções.

- Muito coerente. – acrescenta Poliana, lambendo os dedos lambuzados de chocolate. – Ao invés de vocês ficarem choramingando, seus inúteis, deviam analisar as estrelas. – alerta sua alteza, em tom de impaciência. – Como vocês só sabem viver pendurados em carguinhos, deviam, nessas alturas, se preocupar com o desempenho de nosso clã em outros reinos. Quem sabe sobra alguma boquinha para algum de vocês em outros cantos. Mas é melhor se apressarem. Com a derrocada de nossa estrela, faltarão tetas públicas para tanto companheiro desempregado. Quem chegar primeiro leva. – profetiza a rainha, provocando a imediata reação da companheirada que em bando correram para a porta de saída, se acotovelando na tentativa de atrapalhar uns aos outros. Não faltaram chutes nas canelas e dedos nos olhos. Os companheiros, todos sabem, sempre lutam o bom combate.

Depois de quase esvaziado o recinto, Poliana corre novamente o olhar pela imensa sala. O chão coberto de bandeiras rasgadas e pisoteadas. Os tons pastel não enganaram suficientemente o povo, constata a rainha, abaixando-se para pegar uma única e solitária bandeira vermelha. Caminhava para a saída quando uma velha matriarca do grande clã estrelado lhe indaga: - E você, Poliana, qual será o seu rumo agora?

- Seguirei, companheira, o caminho que eu mesma tracei. Vou me dedicar as causas ecológicas e autossustentáveis, agora. Ideologias mudam ao sabor do vento. Foi bom e útil enquanto durou. Boa sorte para vocês! Talvez nos reencontremos algum dia. Vai depender do vento. O último que sair apague a luz. – despede-se a visionária e astuta Poliana, abandonando o grupo, e jogando displicentemente a bandeira vermelha no lixo.

“A servidão dos tolos sempre serve aos espertos.” – conclui a ardilosa Poliana, eterna rainha da situação.  
 

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Poliana, a rainha da vez

E na reta final da turnê a Horário Eleitoral, quem precisa arregaçar as mangas e dar a cara a tapa para salvar sua cambaleante equipe? Ela! Sempre ela, Poliana, a monarca popstar. Pelo visto, a rejeição à duradoura e bastante lucrativa aliança entre o clã estrelado e a irmandade do fogo, não havia sido contabilizada pelos marqueteiros da dupla escolhida para suceder nossa visionária rainha no trono. Uma coisa precisava ser dita sobre Poliana: sua lealdade aos seus pares era digna de elogio. E sua insistência em persistir em um erro, também.
E como apagar as famigeradas estrelas das propagandas não fora suficiente para iludir os tolos, era preciso atitudes mais drásticas.

- Cortem as cabeças! Cortem as cabeças! – gritava esganiçadamente Poliana, em seus conhecidos ataques de fúria.  – Precisamos conter a queda dos números! Será possível que vocês não sabem fazer nada sem a minha ajuda! – vocifera para o grupo de bobos da corte e marqueteiros. Todos apalermados com os resultados de suas pesquisas.

- Nós estamos tentando, alteza. Já escondemos todas as estrelas e bandeiras vermelhas. Nossa militância está camuflada e vestida de branco. Tudo muito paz e amor! E ainda assim o povão tem nos recebido a chutes e vassouradas! – choraminga um dos bobos, massageando o glúteo dolorido depois de uma sarrafada de uma velhinha em sua última incursão na periferia.

- Não adianta discursinho paz e amor e roupas de querubins quando se tem o famigerado Golesma Bonder no time, seus molóides! Até os postes desse reino se lembram do tempo em que o infeliz praticava atentados terroristas, colando fechaduras de empresas. Em tempo de desemprego, com tanta empresa fechando as portas por aqui, ter na disputa um desocupado profissional e pós-graduado em baderna não deve ser muito atrativo para o povo, não é seus energúmenos?! – continua Poliana, com os olhinhos de biscuit flamejantes.

- Você está sendo muito dura, rainha! – queixa-se o marqueteiro, encolhendo a barriga, estufando o peito e tentando salvar seu pescoço da guilhotina. – Nós demos uma repaginada no Golesminha. Usamos uma base efeito mate e pó translúcido antibrilho. Um make divo! E queimamos todos os bonés do FarsaSindical e camisetas do Movimento Só Tramoia e Trago – MSTT. Ele agora usa um chapeuzinho estiloso e muito distinto. Ninguém vai reconhecer nele nada que lembre seus tempos de arruaceiro. – conclui, orgulhoso.

- A franja, seu estúpido! A franja! – grita Poliana, perdendo de vez a cabeça. – O chapéu só esconde a franjinha, cada vez mais rala. Seu radicalismo do passado é marca registrada do Golesma Bonder. Ele é um companheiro de raiz. É reconhecido onde quer que passe. Vocês podem vestir ele de mórmon e colocar a bíblia embaixo de seu braço, que ele vai continuar sendo o que é: um adorador da estrela! Todo mundo olha pra ele e enxerga uma estrela vermelha e reluzente na testa. Ele precisa ser cortado!

- Cortar sua cabeça, magnânima?! Não acha um pouco radical? Podemos tentar cortar um pouco mais a franja, talvez raspar,  e...

- Cortado dos panfletos. Do rádio. Da TV. Das ruas e dos comícios. Enfiem ele dentro de um armário junto com os discos do Vandré e os livros de Marx, e só abram a porta quando o campeonato terminar. Isso é uma ordem! De agora em diante quem assume a estratégia desse time sou eu! – ordena Poliana com o nariz empinadinho. – Eu, com meu carisma e popularidade, vou garantir, novamente, a vitória para todos nós nessa reta final.

- E como vamos fazer isso, alteza? – pergunta, humildemente, o marqueteiro.

- Eu vou para as ruas. Aparecerei em todas as inserções nos meios de comunicação. Vou explicar ao povão que nossa estrela não é a mesma que se lambuzou em propinas e afundou todo Gigante Adormecido no abismo econômico. Que nossa aliança não é igual a aliança golpista entre interesseiros e velhas raposas.  – Observando o ar confuso de sua seleta audiência, Poliana reflete um pouco e continua: - Quer dizer... na verdade é a mesma estrela, mas é diferente... Se é que vocês me entendem. As raposas não são tão velhas, né? – vacila um pouco a determinada monarca. – E ninguém viu as propinas chegarem por aqui.  – continua a rainha. Respirando fundo e olhando fixamente para o horizonte, ensaiando seu papel para as câmeras, com a voz pausada lança seus melhores argumentos: – Roubar, minha gente, todo mundo roubou. Ou vai roubar. Vocês, gente, precisam enxergar e valorizar quem ainda não foi pego. Essa é a verdadeira mudança! Nós mudamos, porque mudar faz bem! Somos o novo! Somos a nova forma de mudar os discursos para continuar tudo igual. Sem vergonha. Sem pudor. Sem remorso! – com a mão espalmada no peito e ar de sacerdotisa, continua -  Esqueçam a razão! Deixem o cérebro de lado e venham com a gente. Feche os olhos e aposte no 13! – conclui com sua voz doce de encantadora de multidões.

- Nãaaao! 13 não! – gritam os bobos da corte e o marqueteiro, com as mãos na cabeça.

- Ops! Desculpe companheirada! É a força do hábito. Treze agora é o número do azar. – desculpa-se Poliana. – Pensando bem... isso pode virar um jingle! – exclama Poliana, ensaiando uma dancinha e puxando o grupo para acompanhá-la:

“Esqueça o 13. Não é mais 13. Escondemos o 13. Camuflamos o 13. Ignore o 13!”

E assim, Poliana, a eterna vendedora de ilusões, se preparava para desatolar sua equipe e conquistar mais um título para seu time. Sempre fiel aos seus pares. Afinal, quem sai aos seus não se regenera jamais.