domingo, 4 de junho de 2017

Nós, eles, e a democracia

E em Gigante Adormecido o fim do poço parece nunca chegar. Gravações e grampos telefônicos expõem ao povo o mar de lama - e de dinheiro sujo – onde afundam-se quaisquer esperanças de que algo limpo venha a emergir. É a política apresentada como acordes da mais melancólica música sertaneja, escrita e interpretada por Joesley e Wesley, os reis da picanha. A dupla de larápios bregas saboreia um exílio dourado no exterior, com direito a faturar alguns milhões em especulações por conta da divulgação do enredo de seus lucrativos sucessos. São os royalties de seus direitos autorais pagos pelo povo, por decisão de Justiça. Se a conta não parece muito justa, é por que ainda não conhecemos o final da história, garante Justiça. Ao fim e ao cabo, pagaremos duas vezes, desconfia o povo, cada vez mais cabreiro.   Ao povão resta roer os ossos e amargar desesperança.

E Mesóclise, o rei tampão, corre o risco de vir a ser apenas o primeiro tampão dessa trágica dinastia. Ao se ver com a corda no pescoço, balançando desengonçadamente em um tripé de impopularidade, escândalos de corrupção e aliados em debandada, incorpora sua antecessora e acusa a existência de um complô contra si. Brada confiar na integridade moral de seus amigos – aqueles que correm com malas de dinheiro sujo – e entoa a velha marchinha: “Daqui não saio, daqui ninguém me tira!” Mesóclise é apenas a outra face da rainha deposta, para quem tinha dúvidas que a escassez de cerne e a abundância de imoralidade eram o cordão umbilical que unia essa outra dupla - menos sertaneja, muito mais Bossa Nova para intelectual delirar.

E quando o grito de “fora!” parecia enfim unir uma nação há anos separada por ideologias, uma onda de terror vermelho colocaria fogo na frágil e emergente aliança por um país decente. Não há solução longe da democracia, e não há democracia sem respeito às leis e a ordem. O incêndio e a depredação de prédios públicos e a violência dos que dão de ombros a ordem pública, fez calar, novamente, a voz da maioria do povo ordeiro e cada vez mais exausto. O “fora!” que deveria ser berrado em uníssono, foi sufocado pela força irracional dos intransigentes e autoritários que desprezam democracia. Uma minoria de baderneiros e terroristas calou a maioria de um povo decente e que anseia por ética e moralidade.

Olhando para baixo, até onde a vista alcança, não é possível calcular o quanto ainda nos resta desse trajeto em queda livre até atingirmos o final desse poço, onde, esperamos, o solo seja suficientemente firme para permitir o impulso que nos fará começar a emergir desse lodaçal absurdo e indigno. Talvez precisemos cair muito para sabermos valorizar o solo firme. Talvez tenhamos muito ainda a afundar. Que saibamos afundar e mergulhar nesse poço imenso de dejetos sem nunca perder democracia de vista. Quando as coisas nos parecerem insuportavelmente difíceis, e serão, que olhemos para cima, e que a luz das leis, da ordem e da democracia sejam sempre nossa meta a alcançar. Todo resto é cantiga de roda para embalar intelectualóide saudoso da ditadura.

 

 

 

domingo, 7 de maio de 2017

Os salvadores da pátria

Os vídeos das delações de empresários de duas das maiores construtoras do Brasil, descontruíram o mito Lula, o maior embuste desse país. A imagem de proletário e sindicalista preocupado com os podres e desvalidos construída por intelectuais sonhadores desmoronou. Quando Emílio Odebrecht, com ar de zombaria, diz que Lula sempre fora um Bon vivant, está atenuando a verdade, que a essas alturas já está mais do que clara para todos que não são cegos pelo messianismo irracional de militantes petistas: Lula sempre foi um vagabundo. Um proletário preguiçoso, um sindicalista pelego, uma prostituta das empreiteiras. Um corrupto.

Mesmo com pés de barro Lula ainda é visto como um messias por seus companheiros, sempre dispostos a atender um chamado seu para defendê-lo de uma grande conspiração midiático-judicial que tenta impedi-lo de retornar ao poder e salvar os pobres e excluídos desse país.  É o perseguido Lula, a mais honesta das almas.

Na próxima quarta-feira, tradicional dia de competições futebolísticas, o país aguarda com impressionante expectativa por uma audiência judicial. O depoimento do réu Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz federal Sergio Moro. A expectativa é justificada pela importância do réu e pelas acusações que lhe recaem sobre os ombros. Injustificado é que se dê ao ato formal ares de evento desportivo, com direito a torcida, pipoca, algodão doce, coxinhas e pão com mortadela. Os órgãos de segurança de Curitiba se preparam para receber milhares de manifestantes e montam esquemas para separar as duas torcidas adversárias: os pró- Lula, dos pró-Moro. Como se já não fosse tudo absurdamente ridículo, o acusado deseja a transmissão ao vivo da audiência, para o que sua militância promete a instalação de um grande telão próximo ao foro. Só faltará a lona para completar o circo.

O ridículo do espetáculo expõe uma perigosa face do povo brasileiro: a necessidade de um herói que nos salve de nossas mazelas. Lula, o populista, foi eleito e reeleito como o salvador dos pobres e da pátria. Lula é um corrupto mentiroso e um embusteiro falastrão. Moro é atualmente o maior ídolo nacional, o homem que está colocando corruptos atrás das grades e ajudando a varrer a corrupção desse país. Moro é um competente juiz federal que tem em suas mãos os processos do maior caso de corrupção de que se tem notícia. É um exemplo de juiz, não um salvador.  Moro não vai salvar o país, nem da corrupção, nem dos políticos corruptos. A salvação do Brasil – se é que ele tem salvação – está nas nossas mãos, e só será possível no dia em deixarmos de esperar por heróis que venham nos salvar. Super-heróis são fantasias de criança, está mais que na hora de crescermos.  





domingo, 16 de abril de 2017

Odebrecht, a mãe de todas as bombas

E o tão anunciado e esperado fim do mundo enfim chegara. As apocalípticas delações finalmente vieram a público. Por mais que suspeitássemos de seu conteúdo, vê-las assim fora das sombras causavam um estranho misto de apreensão e redenção. Os meandres do poder começavam a ficar claros ao povo. Nefastos, putrefatos e indigestos meandres. Assim como as cifras. Astronômicas cifras, capazes de deixar zonzos aos pobres e incautos que ainda aturdidos assistiam aos trechos que lhe eram jogados impiedosamente nos telejornais. Ainda mais assustadoras que as vultuosas somas descritas, era a calma e a clareza quase enervante dos delatores ao relatarem episódios tão desprezíveis de nossa história. A riqueza dos detalhes e a desgraçada crueza dos fatos impedem a qualquer um desconfiar da veracidade da sordidez delatada. Em frente à televisão, o povo sente um sufocante aperto na garganta e uma ânsia de gritar que alguém pare o filme, não pode ser este o enredo. Mas, é. Sempre fora, afirmam os narradores com a convicção dos que tudo sabem e já nada temem.  

E havia nomes para todos os gostos, siglas de todas as torcidas, ideologias de todos os odores. Ex-presidentes para satisfazer toda era democrática. Existe apenas pecado no lado de baixo da linha do Equador. E por outros continentes também, afinal nossa corrupção endêmica é padrão exportação.

E na narrativa quase hipnótica dos delatores, estes afirmam que caixa 2 é algo absolutamente corriqueiro. Como ir ao banheiro.  Não existe eleição sem caixa 2, afirmam.  Simples assim!  Feito café com açúcar ou pão com margarina, pensa o povão, remexendo-se desconfortável nas poltronas. Então todos aqueles milhões e milhões... eram só pão com margarina, coisinha pouca afinal. É o que querem que acreditemos. Como parece fácil aceitar que Ministros da Fazenda (Ministros de Estado!), como se office boys fossem, movimentassem milhões de dinheiro sujo, dinheiro não declarado, com a desculpa de financiar campanhas, como se fosse pouca coisa. Não é! Isso é crime! E ao ouvi-los discorrer sobre o assunto parecem falar sobre compras em shoppings centers, pagas com dinheiro deles, e não sobre dinheiro nosso financiando interesses deles. Coisas de tal forma surreais que provavelmente são incompreendidas por boa parte de nosso povo, incapaz de conceber tamanha desfaçatez.

Nos vídeos divulgados ao mundo há espaço para tudo. Seriedade, solenidade, arrependimento, descontração, descaramento. Até lição de moral do velho poderoso chefão dos empreiteiros corruptos querendo posar de pobre vítima do sistema.  Páginas de nossa história que levaremos meses para saborear e desvendar totalmente. As amizades insólitas que construíram um mito de pés de barro que um dia jogaria o país na lama, com certeza prometem ser um volumoso capítulo desse circo de horrores. Aguardemos.

Que essa hecatombe que se abateu sobre nós sirva para separar o joio do trigo. Se não restar trigo, é hora da semeadura.

 

 

 

 

sábado, 8 de abril de 2017

Cem dias, fim de trégua

Passados cem dias, a lua de mel acabara. A tradicional trégua concedida aos novos gestores da coisa pública chegou ao fim. É hora de mostrar a nova cara prometida em Horário Eleitoral. Se não o retrato completo, um rascunho convincente ao menos. É o que esperam os súditos.

E no pacato e hospitaleiro reino de Campo Pequeno as coisas não seriam diferentes, bem sabe Chucrute, o novo monarca, já sentindo o peso da tão almejada coroa. Fora escolhido para ser o furacão da mudança, pois hoje sentia-se como uma singela baforada, ligeiramente cálida. E seria cobrado por isso, estava ciente. É chegada a hora de dar a cara a tapa e de mostrar que espécie de monarca será. São conhecidas de todos as dificuldades financeiras das contas públicas. Dificuldades essas que já eram esperadas por Chucrute durante a disputa ao trono. Portanto, o novo rei não pode dizer que não sabia. Como não poder justificar a demora no cumprimento das promessas por conta da burocracia da coisa pública, pois já fora rei e conhece a fundo o engessamento da paquidérmica máquina. Se vida de rei é difícil, a de quem volta ao trono é ainda pior, estava aprendendo o ariano, a essas alturas bem mais circunspecto que o habitual.

Sentado no amplo salão real, Chucrute parecia um tanto solitário no entardecer desses cem dias. O castelo não era o mesmo de seu reinado anterior, refletia. As infiltrações e a decadência eram evidentes. Precisava evitar que essa decadência se infiltrasse em seu reinado, pensa, um tanto aflito. O trono também não lhe parecia tão confortável como fora em outros tempos. Sinal de envelhecimento de seus glúteos, com certeza. Deveria ter escutado sua esposa e se dedicado um pouco a prática do Pilates nesses 16 anos, constata massageando as nádegas doloridas. Algumas coisas não mudaram com o tempo, constata. Poder e vaidades eram algumas delas. A disputa por poder e a fogueira de vaidades na política continuam idênticas. Que desgraça! Conhecido pela memória espetacular, capaz de lembrar até a quinta geração de todos os seus súditos, nosso prodigioso monarca não poderá sequer alegar não se recordar dos asquerosos meandres do poder.

 Olhando seu amado reino através das janelas do castelo, Chucrute suspira desanimado. – Talvez fosse uma boa ideia colocar a redoma de vidro fumê de Poliana novamente por aqui. Só por uns dias, é claro! A realidade é tão deprimente. – titubeia um suspiroso Chucrute, o prometido tornado da mudança, já ansiando por um pouco de ilusão de ótica, eterno ópio dos reis desse adorável lugar.

 E se o reinado é de mudança - embora curiosamente algumas moscas permaneçam as mesmas - no reino dos Botas Amarelas as mentalidades continuam tacanhas. No que concerne o bom uso do dinheiro público todos são unânimes em erguer a bandeira da moralidade. Moralidade essa que se esvai rapidamente quando o dinheiro público deixa de regar os interesses desses mesmos grupos de baluartes da moral de cuecas rotas. O ar de profundo ultraje e mágoa – com direito a narizinhos empinados e tudo – pelo corte de recursos do contribuinte para canarinhos e galos, merecia premiação com o troféu “Gente Estúpida”. O mesmo vale para os adoradores de corridas de automóveis, que se debulham em lágrimas nas redes sociais pela falta de aporte financeiro ao evento. Seria um chororô divertido se não fosse ridículo e absurdo que pessoas não tenham a menor noção de que dinheiro público não é para financiar clubes de futebol ou competição de rally. Como não é, absolutamente, para reformar salões comunitários ou instalações religiosas de quaisquer credos. Clubes de futebol que não contam com torcida suficiente para se manterem em pé, que fechem as portas. Comunidades religiosas que não conseguem se organizar com o auxílio de seus fiéis, que rezem ao ar livre sob as bênçãos de Deus. Dinheiro público, dos contribuintes, não pode socorrer as cadeiras e arquibancadas vazias de eventos, igrejas, salões, ginásios ou estádios. Dinheiro público é para socorrer os doentes amontoados em cadeiras e macas nas emergências superlotadas de hospitais. Quem  não consegue entender isso é estúpido ou de caráter deturpado. Aqueles que convenientemente esquecem a bandeira da ética na hora de defender a “doação” de dinheiro público para seus clubes, congregações e agremiações de qualquer natureza, que tenham ao menos a decência de pendurarem suas cuecas rotas em mastros e exibi-las em praça pública com os dizeres: Moralidade para os outros, dinheiro público para os meus!

domingo, 19 de março de 2017

O BBB dos vendilhões

  • Enquanto em Gigante Adormecido o povo descobria algo mais podre que a política - a carne - no pacato reino de Campo Pequeno a Câmara de Vendilhões prometia inovação. A esperança dos súditos de renovação, com novos vendilhões de Situação e Oposição, mostrava-se só mais um engodo bolorento e putrefato, como salsichas e presuntos.
  •  Pois a nova legislatura, com novos e ávidos vendilhões do povo, resolvera adentrar logo de cara na era da modernidade tecnológica. Nada mais das arcaicas e prosaicas votações de outrora, com simplórias contagens manuais, feito chamada do colegial. Afinal, uma vastíssima assembleia de dezessete notáveis necessitava de um painel eletrônico para controlar as acirradas disputas voto a voto. Seria uma temeridade que algum ignóbil qualquer deixasse de contabilizar um importante voto de louvor ou fizesse vistas grossas no momento sublime em que nossos vendilhões decidem dar o nome a uma viela. Uma câmara tradicionalmente tão afeita a discussões e votações importantes, como solicitações de lombadas e bueiros, necessita de fato e por mérito, de um painel eletrônico para coroar suas produtivas reuniões. O súdito que discordar poderá mandar um email ou torpedo a seu vendilhão preferido, e torcer que o mesmo saiba como lidar com a avançada tecnologia de mensagens eletrônicas.
    E já que aos nossos ilustríssimos vendilhões são atribuídas a elaboração de leis, urge a necessidade de assessoria jurídica. Tudo perfeitamente lógico e explicado. Mas, se por aqui o campo é pequeno e a câmara é tradicionalmente uma servil assembleia de vassalos que se limita a abanar o rabo para as propostas do executivo e aprovar moções de apoio e nomes de rua, qualquer advogado de meia pataca serviria. Pois aos nossos bravos vendilhões nem ao menos uma pataca inteira está de bom tamanho. A assessoria jurídica da casa não é suficiente já que a pilha de solicitações de controladores de velocidade se acumula nas mesas. Faz-se necessário a contratação de mais uma empresa de advocacia para auxiliar nossos eleitos. Só para se dedicar e embasar juridicamente a correta denominação das ruas do reino. Que sorte nossa, os súditos, podermos contar com representantes tão preocupados com a forma legal de usurpar nossos recursos.
    E como avanço pouco é coisa de colono ou suburbano, nossos vendilhões decidiram aparecer. Não aparecer nas comunidades onde conquistaram seus votos de apoio e crédito, é lógico. O negócio era aparecer na TV. E se a TV não vai aos tolos, os tolos compram a TV com o bom e velho dinheiro público. A Câmara de Vendilhões adquirira para si um canal aberto de televisão. Negócio da China, de causar inveja às grandes empresas da área de telecomunicações que hoje tropeçam para manterem-se de pé. Tudo que o povo desse reino almejava era um canal inteirinho pautado por seus eleitos vendilhões. Com tantas discussões vazias e protagonistas medíocres será o fim do BBB. Concorrência desleal, de fato. Os custos dessa televisiva vaidade tupiniquim sairá, é claro, dos bolsos dos contribuintes. Pois bolso de contribuinte não tem fundo, como sem fundo é a falta de senso de ridículo de nossos eleitos.
    No amistoso e acolhedor reino de Campo Pequeno o povo optou por mudança. A voz desse povo gritava por um basta. Pois a mudança veio. Fez-se a renovação. Mudaram as moscas. Agora cabe ao povo decidir se quer que a bosta seja apenas revirada, ou coberta de vez e definitivamente. Quem paga picanha e aceita comer papelão vale aquilo que defeca.
     
     
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                            • sábado, 28 de janeiro de 2017

                              O tom de Doria

                              Acho bonito os grafites, pelo menos parte deles. As pichações são um lixo, todas elas. Mas está coberto de razão o prefeito de São Paulo, João Doria Júnior, grafite tem de ter o seu lugar. Como tudo aliás, de carnaval a sexo. Triste de uma sociedade que não sabe o lugar das coisas. Grafites espalhados pela cidade dão um ar de abandono e descaso do poder público. E é exatamente disso que se trata: abandono, descaso e a falta que o poder público faz quando não é capaz de colocar as coisas no seu devido lugar – de pichadores a assassinos.
                               
                                         Assistir nos últimos dias a comoção histérica de artistas globais e da mídia (e como andam histéricos alguns intelectuais e a mídia ultimamente, deve ser algum novo vírus) com a campanha de Doria de limpeza da cidade chega a ser divertido. Falam da importância do grafite na nossa cultura como se Cabral quando aqui aportou tivesse encontrado índios pelados grafitando as árvores com a seiva de Pau-Brasil. Argumentam que é a arte popular ocupando legitimamente os espaços públicos. Não é! Espaços públicos são públicos, são de todos não de alguns, mesmo que sejam Michelangelos e Picassos. Está mais que na hora de acabarmos com essa palhaçada (bem assim, palhaçada, é preciso colocarmos os adjetivos no seu lugar também) de repetir para a população que “temos de ocupar o que é nosso”, que qualquer porcaria é arte e que todo lixo que algum grupo inventar é representação da cultura brasileira. Propalar essas baboseiras é querer enfiar na cabeça do povo uma cultura de desrespeito às leis e a ordem pública e desvalorizar tudo aquilo que de fato é arte, tradição e cultura para nós. E quem repete isso insistentemente? Os mesmos que em relação as carnificinas nos presídios gritam que o problema é que prendemos muito, punimos demasiadamente, que traficantes são vítimas da sociedade (vítimas de nós, bem entendido) e que a solução é a liberação das drogas e a libertação de todos os condenados por tráfico. Que romântico! Aquelas pessoas que nas favelas alvejam os helicópteros da polícia, assassinam turistas desavisados, e nos presídios degolam, decapitam e esquartejam, quando livres, nesse colorido país das drogas liberadas e sem tráfico, vão fazer o quê? Se tornarão empreendedores, decerto. Vão abrir açougues e franquias do McDonald’s talvez. Venderão milho verde e bijuterias em Copacabana. Os jovens “aviãozinhos” voltarão aos bancos escolares ávidos para ingressarem em uma universidade, cursar filosofia e estudar Foucault. Vai ser exatamente assim, entendem os atores globais, os intelectualoides de botequim e a grande mídia progressista. E ainda tem gente que acredita que maconha não sequela.
                               
                                         Gosto do colorido dos grafites, desde que estejam no espaço reservado a eles. Aprecio a ideia colorida de um país de droga livre e violência zero, na categoria romances e ficções.  A realidade é cinza, como as paredes de Doria. Se pretendemos ser um país onde bandidos sejam punidos com restrição de liberdade em presídios dignos e não esquartejados sob o olhar aparvalhado do Estado, onde nós brasileiros não sejamos assaltados, violentados ou assassinados como vermes nas ruas, também sob as barbas do Estado, o poder público tem de ocupar os espaços públicos. O Estado precisa retomar o seu espaço, pois foi aí que tudo se perdeu. Precisamos conviver com o cinza para saber apreciar e valorizar as cores, mesmo as mais sutis, e aprender que cor em excesso cega, Estado ausente mata e a maconha sequela. Se não for assim, em breve, decapitar e esquartejar pessoas será considerado um importante traço de nossa cultura.
                               

                              domingo, 8 de janeiro de 2017

                              Um reino sob nova direção

                              O momento era de festa para os que entravam e despedida para quem saía. O aspecto decadente do palácio real dava um certo ar melancólico à solenidade. A tinta dos velhos pilares desprendia-se da estrutura carcomida por rachaduras como se quisesse escapar furtivamente da ruína do prédio histórico.  A grande bandeira da praça central se fizera ausente na noite festiva. Já não tremulava majestosa há alguns dias. Por ironia, não estava em frente ao paço para saldar o novo rei, justo aquele que lhe reservara o local de destaque há quase vinte anos.  O mastro nu simbolizava o fim de uma época.

                              Uma serena Poliana acompanhava o desenrolar das formalidades. Era hora de ceder o trono e a coroa ao novo escolhido do povo. Poliana sempre soubera que este momento chegaria. E chegara. Correndo os olhos pelo palácio, sem enxergar os sinais de abandono do local, pensava que aquele não seria mais o seu castelo. No dia seguinte novos bobos e pajens ocupariam o lugar dos seus. Outras caras, outros conceitos, outra ideologia. Poliana já entrara para história, mas sabia que em pouco tempo seria só uma apagada lembrança.

                              Era hora de entregar a coroa, anuncia o cerimonial. Sua alteza, Poliana, em seu último ato real, retira lentamente a coroa da cabeça. Admira pela última vez o objeto repleto de simbolismos. O novo rei aguarda solenemente o próximo passo. Um tanto relutante Poliana demora-se um pouco até passar a coroa a seu sucessor. O gosto pelo poder entranha-se na alma dos poderosos feito os musgos nas rachaduras do palácio real.  Era o fim do reinado de Poliana. Um capítulo que se encerrava. O novo rei, com um cerimonioso sorriso, posa para as câmeras. Um outro capítulo se iniciava.

                              Uma escuridão imensa cai sobre Poliana. Os flashes já não eram mais seus. Sentiria falta dos holofotes quase tanto quanto do poder, suspira. Despedindo-se de seus velhos bobos da corte e aliados, caminha lentamente em direção a praça. Era novamente uma pessoa comum. Podia caminhar tranquila sem ser interceptada a cada cem metros por algum súdito queixoso. No centro da praça, para em frente ao chafariz. Estava seco e em desuso. Uma pena, pensa Poliana. Lembrava-se do tempo em que seus jatos coloridos jorravam graciosos e famílias inteiras se reuniam a sua volta para apreciar a dança das águas. Deviam demonstrar mais preocupação com os antigos símbolos do reino, reflete Poliana, balançando a cabeça desgostosa. Virando-se um pouco, lança um último olhar para o castelo, onde uma pequena multidão se aglomerava para parabenizar o rei recém entronado. O céu, até então encoberto, abre-se um pouco, permitindo que a luz da lua ilumine o imponente prédio. Poliana se surpreende com o que vê. Decadência e abandono descortinam-se aos seus olhos.  A estrutura toda parecia se curvar, cansada, sob o peso dos anos e da omissão. Quanto descaso com a história de um povo, entristece-se Poliana. Inadmissível que tenham deixado as coisas chegarem nesse ponto, indigna-se, seguindo lentamente o seu caminho de gente comum. Poliana já não era mais vidraça. Podia decidir tranquila o ritmo de seus passos. Não devia mais explicações a ninguém. Quer dizer... só a Justiça! – lembra-se Poliana, de súbito apertando o passo e olhando temerosa para os lados. Poliana, que enquanto rainha tantas vezes fizera pouco caso de Justiça, agora enfrentaria a espada da bruaca como gente comum. Melhor correr, constata Poliana - a comum - em sua nova e desembestada maratona.

                              E este pacato e hospitaleiro reino agora tem uma nova direção. O reinado de Chucrute, o ariano, se inicia. O reinado da mudança. É o que promete o novo rei e o que dele esperam seus súditos. Que seja Chucrute o rei de todos, e não um rei para o seus. Que evite, o ariano, a tentadora película cor de rosa que costuma encobrir a visão de quem governa, colorindo fantasiosamente a verdade e afastando o monarca da realidade cinzenta de seu povo. Que não abandone suas intenções e convicções no tortuoso caminho dos conchavos e interesses políticos. Que possa ser firme em suas certezas sem ser teimoso nos seus erros. Que saiba voltar atrás e corrigir o rumo de seu reinado sem medo de demonstrar fraqueza. A fraqueza é qualidade dos fracos, como a covardia é dos covardes e a incompetência dos incompetentes.  E este povo não o escolheu para ser fraco, covarde ou incompetente.  Que saiba defender seus acertos até quando estes não lhe rendam votos e aplausos, e que os defenda com afinco mesmo sob uma saraivada de vaias. Um rei não tem de ser popular, um rei precisa ser rei e pelo bem de seu povo reinar. Que saiba ouvir críticas - e detestá-las - sem jamais detestar aos seus críticos.  E em todas as vezes que as críticas, e os críticos, lhe parecerem excessivamente duros, saiba questionar se como rei não estaria sendo excessivamente cego ou convenientemente enganado.

                              São essas qualidades de um homem e é isso o que se espera de um rei. Um próspero e produtivo reinado Rei Chucrute! É o que lhe desejam seus súditos. Bom trabalho.

                               

                              domingo, 11 de dezembro de 2016

                              República lavada a jato

                              E Gigante Adormecido ainda não chegara ao fundo do poço, como acreditavam alguns. O poço era muito mais escuro e profundo, era o que prometiam políticos, juízes e delatores.

                              Conflitos e crises institucionais resolvidos com articulações e conluios arbitrados, vejam só, por Justiça. Justiça, a quem cabia defender a carta maior, resolvera entrar no jogo político de cartas convenientemente marcadas. Uma temeridade que fazia Democracia se contorcer desconfortável.
                               
                              O povo, leigo nos meandros e dialeto pomposo de Justiça, acompanhava o placar e torcia como em jogo de futebol. Assistir Justiça entrando em campo, pelo visto, prometia se tornar uma nova paixão nacional. Encerrada a sessão, frente a um placar que desagradava a imensa torcida canarinho, as vaias pipocavam nas redes sociais. Em um jogo onde o resultado é sempre e indiscutivelmente definido pelo juiz, quando um velho cartola da política garantia para si o mando de campo, era como se tivesse a arbitragem nas mãos. Se assim não era, assim parecia. Sorte de Gigante Adormecido ter o futebol para consolar e apaziguar seu povo. Esporte onde as regras eram claras, conhecidas e compreensíveis para todos. Até para o juiz.

                              E enquanto tricolores e canarinhos ainda se recuperavam da ressaca das duas últimas partidas, Imprensa Livre denuncia mais um vazamento de excrementos que emporcalha a quase todos. Podridão ainda maior permanecia oculta, sob sigilo de Justiça. Uma imundície que faz República também se contorcer em desconforto.

                              O povo assiste a tudo, cansado. Com um desânimo enorme sobre os ombros. Quisera poder apenas trocar de canal e saborear as batalhas fictícias de Game of thrones, onde verões duram décadas e os invernos uma vida inteira. Em Gigante Adormecido os invernos ameaçam durar uma vida a mais. Apesar do desânimo e do cansaço, sabia o povo que tinha de agir. Novamente.  República precisava ser limpa. A qualquer preço. E a fatura, pelo visto, seria paga em prestações, a cada sopro de delação vazada, até que todo o lixo viesse à luz. O desafio do povo era higienizar República sem perder jamais Democracia de vista.

                              Esse inverno prometia ser rigoroso e longo, e o fundo do poço ainda tardaria a ser atingido por essa nação do futuro, onde o tão prometido futuro parecia nunca chegar.
                               
                               

                              domingo, 27 de novembro de 2016

                              Expiação socialista

                              O lugar era escuro e o calor insuportável e escaldante. O mormaço desconfortável tornava a respiração pesada e difícil. O suor lhe escorria na fronte e já pingava pelos fios grisalhos da barba um tanto rala. O ambiente era claustrofóbico e úmido. Um labirinto. O homem apertava os olhos embaçados para tentar descobrir o caminho certo a seguir. Uma encruzilhada à frente lhe fizera parar e relutar, em dúvida.

                              - Avante, General! À esquerda! Essa sempre foi sua escolha! – ordena uma autoritária voz, com um sotaque bem diferente do seu.
                              Acostumado a mandar, o homem ainda titubeou um pouco antes de decidir por seguir as ordens daquela voz, um tanto fina, mas firme, decidida, e definitivamente arrogante. Um pouquinho de seu orgulho já se esvaíra com o suor que lhe empapava a farda verde-oliva. Caminhou por quilômetros. Ou teriam sido metros? Os coturnos nunca lhe pareceram tão pesados. Que falta lhe faziam seu tênis Nike. Malditos Imperialistas Ianques! O embargo, que não lhe perseguira em sua longeva e farta vida material, pelo visto lhe atingiria por toda o resto de sua existência infernal.

                              No final do úmido e mormacento túnel, havia, não luz, mas uma solitária brasa. E em direção à brasa o general se dirigiu, com os pesados passos de noventa anos bem vividos e o peso de muitas vidas bem fuziladas. Vendo-se livre daquela masmorra opressora, suspira aliviado. Mas é acometido por um surto de tosse, ao inalar o ar carregado com o forte cheiro de enxofre do local.

                              - Heil, Fidel!  - saúda o homem baixote e empertigado, de farda engomada e impecável, ralos fios de cabelo lambidos e repartidos para o lado, com o diminuto bigodinho negro sobre os lábios, e a reluzente e imponente suástica no braço. – Beienvenido, el general! – improvisa o ariano, em raro momento de concessão com raças inferiores.  Trazia, Adolf, entre os dedos, um charuto. Que maravilhosa constatação, pensa Fidel, entre uma tossida e outra, ter sido justo a tênue chama de um charuto que o conduzira no labirinto do inferno. A essas alturas, toda ilha devia estar em prantos por sua súbita e precoce ausência, lastima el capitan.

                              - Beba isso, comandante! – Oferece o alemão, seco, uma dose de Rum com gelo. – A travessia dos portais do inferno sempre é árdua para nós, os grandes.

                              O homem, em grandes e sedentos goles, rapidamente esvazia o copo, que novamente é enchido pelo outro. Já na terceira dose, Fidel lança pela primeira vez o olhar para o local. Era uma diminuta sala, com uma cama estreita, uma latrina e uma pia. Só se diferenciava de uma cela pela presença de uma poltrona em frente a uma tela. Curioso, pensa o revolucionário, pelo visto há entretenimento no inferno.

                              Voltando novamente os olhos para seu anfitrião, surpreende-se com o aspecto do mesmo. Já não lhe parecia o mesmo homem de minutos atrás. Talvez o calor tivesse turvado sua percepção inicial, constata. A pele acinzentada revestia um rosto ossudo e encovado, e o corpo encurvado parecia mal conseguir sustentar o peso da farda. Não lembrava em nada o empertigado Adolf Hitler das fotos dos livros de história.

                              - Então é aqui que eu vou ficar? – pergunta.

                              - Sim. – responde o ariano.

                              - É bem melhor do que eu esperava. Sou um líder revolucionário. Já dormi em lugares muito piores que este. Vou me adaptar facilmente. – constata Fidel, estufando o peito rejuvenescido após a passagem. – E a comida é boa?

                              - Depende.

                              - Depende do quê? Do meu comportamento aqui no inferno?

                              - Não, comandante. – responde Adolf, com um discreto suspiro. – Depende da comida que você mandou dar aos presos de seu tempo.

                              Tentando disfarçar o desconforto com a notícia, Fidel resolve mudar de assunto e questiona ao outro:

                              - E essa tela? Vou assistir a mesma programação que obriguei os cubanos a assistirem esses anos todos? Eu posso ver a repercussão mundial com a minha morte? Estou louco para ver o pronunciamento de Barack!  E o pesar legítimo da maravilhosa América Latina nas palavras de Maduro, Evo, Luís Inácio e Fernando Henrique.

                              - Não, Fidel. – reponde Adolf, parecendo cada vez mais cansado e até um pouco triste. – Nessa tela não passará nenhum de seus intermináveis e cansativos discursos. Muito menos as lamúrias de políticos idiotas e hipócritas por sua morte. Essa tela, el comandante, é a sua penitência.

                              - Um telão?! -  pergunta o general, olhando com descrédito para o objeto branco. Se soubesse que a pena seria esta, talvez tivesse se entregado bem antes dos noventa.

                              - Nessa tela, comandante, passarão continuamente, não a sua vida, mas a vida e a história de cada cubano que você prendeu, perseguiu, torturou ou matou. – informa o outro.

                              - Eu não cheguei onde cheguei sendo um fraco, Adolf! – empertiga-se Castro. – O sofrimento e a morte nunca me acovardaram. Sou o que sou por me dedicar a uma causa.

                              - Interessante, Fidel. Usei palavras parecidas quando Mussolini aqui me recepcionou há tanto tempo.  Ele chegara aqui poucos dias antes de mim. – relembra o ariano, fixando os olhos no recém chegado. Olhos sem nenhum brilho e que pareciam carregados de uma agonia que fizeram o socialista se arrepiar. – Mas, el comandate, você não vai apenas assistir. Seria uma pena branda, não é verdade? Você vai sentir, Fidel. Sentir tudo o que sentiram suas milhares de vítimas. A raiva, a revolta, o sofrimento, a fome, a angustia, o medo, a dor. Vais sentir a morte, Fidel. Milhares de mortes! E vais senti-las, milhares de vezes, até que tenhas entendido a imensa inutilidade de cada uma delas. Até que te arrependas de todas. Essa é tua pena. E aqui, como em tua ilha, ou em minha Alemanha nazista, não há recursos. – informa Adolf, dirigindo-se cansativamente para o labirinto. – Boa sorte, Fidel. – deseja o outro, em um quase sussurro de despedida.

                              - Espere! – grita o comandante. – Isso não é justo! – argumenta, exaltado. – Tudo o que fiz, fiz em nome de um ideal de justiça social e igualdade! Almejava uma ilha sem desigualdades ou privilégios burgueses, com saúde e educação para todos! Fiz tudo em nome de um bem maior! Sempre tive as mais justas e boas intenções! – argumenta o ícone socialista, nababo caribenho que degustava lagostas enquanto seu povo se prostituía para complementar a ração mensamente fornecida pelo Estado.

                              Sob o umbral da saída, Hitler para por um breve momento e voltando lentamente a cabeça reponde ao revolucionário comunista: - É como se diz lá no mundo terreno, Fidel: de boas intenções o inferno está cheio! Hasta la vista, el capitan! – despede-se o ariano, abandonando o recinto.

                              Sozinho, Fidel vê o lugar tornar-se escuro e a tela, que agora lhe parecia imensa, se iluminar com imagens espetacularmente reais de uma mata, Sierra Maestra! Era como se ele tivesse sido jogado para dento da tela. Sentia-se ofegante, como se tivesse corrido milhas. Sentia medo! Um medo sufocante que lhe oprimia o peito. Estava sendo perseguido. Precisava escapar! Não conseguira. Fora capturado. Sentia a dor dos golpes e o gosto de sangue na boca. Perdera a consciência. Acordara e sentira um cheiro nauseante. Virara o rosto tentando identificar de onde vinha o odor asqueroso. Então, o vira. Che! Neste momento, Che ergue uma faca imunda em sua direção. Fidel tenta lutar, o pavor lhe faz tentar resistir. Mesmo apavorado, enxerga um outro jovem atrás de Chê, que gargalha com outros, assistindo a degola eminente. Era ele mesmo, Fidel! Dono de todas as certezas e confiante de que todos os meios justificam qualquer louvável fim. – Não! – grita Fidel para ouvidos moucos. – Sou eu! Sou eu camaradas! – tenta argumentar antes de sucumbir a primeira das milhares de mortes que o aguardavam no inferno.

                              Assim passou Fidel, sua primeira morte no inferno. A primeira de milhares.

                              Mas este é só um conto, uma ficção. Fidel sempre será o revolucionário idealista e utópico das esquerdas. E um ditador assassino e cruel para os demais.

                              Onde quer que estejas Fidel Castro, que lhe sejam justos teus julgadores, da mesma justa forma como justo fostes com os teus opositores.

                               

                               

                               

                               

                               

                              sábado, 19 de novembro de 2016

                              Esses moços, pobres moços

                              E o garotinho fez uma ceninha. Simulou, chutou, esbravejou e gritou. Só faltou se finar, feito criança pequena. Não estava acostumado com limites. Limites! Que falta faziam os limites em uma sociedade, pensa o velho, observando a criança que berrava no corredor do supermercado, exigindo um pote de Nutella, sob o olhar constrangido e passivo dos pais. Corredor que se esvaziara rapidamente, em claro sinal de repulsa da sociedade a ditadura das crianças e a inércia de seus genitores.  Alguém devia proteger esses pequenos da incompetência de seus pais, reflete o velho, carregando suas sacolas para fora do local.

                              Já em casa, enquanto arrumava as poucas compras em seus lugares, escutava as notícias do telejornal, onde um outro Garotinho, esse bem mais crescido, mas igualmente desconhecedor de limites, também fazia uma ceninha, tentando escapar da prisão. Que tipo de pais criaram uma figura de tal forma arrogante a ponto de se prestar a esse papelão ridículo, questiona-se o ancião, balançando a cabeça em desagrado. Que tipo de sociedade permitira que uma figura tão patética chegasse onde chegou, suspira impaciente.

                               Mas as notícias continuavam, e passavam rapidamente de Garotinho a garotões. Adolescentes permaneciam ocupando escolas em todo território nacional. Jovens tentavam, a força, invadir universidades privadas. Universitários tomavam para si prédios públicos, como se por serem públicos fossem deles. Funcionários públicos marmanjões, durante um legítimo protesto, legitimaram sua total intransigência e autoritarismo, agredindo fisicamente um conhecido repórter, justamente por ser este da grande imprensa. Manifestantes, saudosos da ditadura, adentraram agressivamente no Congresso Nacional, alegando ser aquela a Casa do Povo, enquanto defendem um regime autoritário onde essa Casa seria extinta, e a democracia também. Flashes curiosos desse país de dimensões continentais e imbecilidades abissais.

                              Terminadas as tarefas domésticas, o velho puxa um banquinho e senta-se, sozinho, em frente ao borralho. Lentamente enrola um palheiro, seu parceiro de meio século. Seu médico alegava que esse hábito acabaria por lhe abreviar a vida. Para esse octogenário parecia que as notícias de seu país lhe abreviavam as esperanças e a crença na humanidade, de tal forma que chegava a desejar que os prognósticos médicos se concretizassem o mais rápido possível. Já não era a catarata que lhe turvava a visão, e sim uma imensa tristeza por esses moços que via nos noticiários. Esses moços, pobres moços, talvez até saibam o que querem. E querem, como queremos todos, um mundo melhor para jovens e velhos. O que esses moços não sabem é que existem limites, e limites precisam ser respeitados. Falharam e falham os pais, ao não darem limites a suas crianças. Falhou - e falha - a sociedade, ao condescender com a falta de limites de nossos moços. Uma sociedade sem limites é território de tiranos, reflete o velho, tragando seu palheiro. Quem coloca seus ideais e convicções acima do direito de outrem, não respeita nada que não o próprio umbigo. São mimados idealistas. Apenas isso. Em resumo, são apenas egoístas com pouco cerne. Ideais se tornam desprezíveis quando desprezíveis são os que empunham suas bandeiras. Uma nação onde instituições são passivamente coniventes com o ilegal, o imoral, e o ilegítimo, e onde uma minoria é capaz de se sobrepor ao direito da maioria, é uma terra de ninguém. E, nessa terra de ninguém, quem conseguir se finar e espernear melhor, será o dono da bola, do campo e dos holofotes. Aos demais, resta assistir ao teatrinho dessa geração de revolucionários movidos a Nescau e pão com Nutella. Tão cheios de direitos, e tão vazios de deveres e responsabilidades. Esses moços, tristes moços, não sabem e jamais saberão o que é ser gente de verdade, suspira o velho, entristecido, apagando seu palheiro. Serão eternas crianças ranhetas e birrentas, dignas de pena, somente. O pior destino de um jovem é não amadurecer jamais. O pior destino dessa nação é ser sempre Brasil, terra de corruptos arrogantes e de mocinhos mimados e inconsequente, lastima o velho, iniciando o preparo do almoço de domingo.

                              Há décadas era assim. Aos domingos o almoço era por sua conta. Sua esposa dormia até mais tarde nesse dia. Não era fácil a vida de casado, sorri o ancião. Sua velha, depois de tantos anos, ainda reinava como uma jaguatirica.  A vida em família é como a vida em sociedade, só se sustenta com respeito e muita tolerância. Tomara que os moços aprendam isso antes de casarem, deseja o velho. Caso contrário, a vida conjugal irá lhes arrancar as mesmas orelhas que seus pais, por covardia e acomodação, tiveram dó de fazê-lo. Melhor orelhas ardentes em tenra idade, do que uma vida decadente e vazia na idade adulta, constata o velho, preparando o chimarrão para sua parceira de cinquenta anos. Quem sabe os moços um dia virem homens. Quem sabe, espera o velho, descrente.

                              sábado, 12 de novembro de 2016

                              Poliana, levando o bode para casa

                              E nossa sempre astuta e ardilosa rainha, Poliana, conseguira emplacar mais um gol de mão nos minutos finais de seu reinado. Oposição até esperneara, pedira falta e acusara impedimento, mas de nada adiantou. Poliana era a dona da bola, do campo, e deitava e rolava nas peladinhas noturnas da Câmara de Vendilhões.

                               E em nome do bom e velho interesse público, a despretensiosa corte de sua alteza estava desobrigada a cumprir as velhas e rançosas leis desse singelo e caloroso reino. Os argumentos da tropa de choque da rainha eram, como sempre, dignos de louvor e de soluços de emoção frente a tanto empenho e preocupação com o futuro do reino. A preocupação com o futuro, ao que parece, só chega aos quarenta e cinco do segundo tempo. Quisera – pensa o povo – que mandatários e vendilhões pudessem pensar no futuro logo após o apito inicial da partida. Singelos sonhos dessa plebe rude.

                              Pois, decorrida mais de meia década da aquisição da terra para o prometido novo distrito das indústrias, Poliana e sua corte descobriram, em regime de urgência urgentíssima, que a tal área precisa ser regulamentada imediatamente. Nenhuma espera é tolerável, afinal, seria prova cabal de insensibilidade com a crise de empregos que assola todo Gigante Adormecido, exigir-se o cumprimento das leis. As leis, advogam os vendilhões da rainha, são como argila. Feitas para serem moldadas aos interesses daqueles que têm as maiores e mais hábeis mãos. E, assim se fez. Estava aprovada uma nova área para a implantação de industrias! Méritos de nossa alteza, sem nenhuma sombra de dúvida. Imensa e verdejante área. Verdadeiro esplendor, onde, em se plantando tudo dará. Mas, tratando-se de empresas, em se instalando, tudo faltará. Faltará água encanada, luz elétrica, esgotamento sanitário, acesso e calçamento. Tudo muito pouco atrativo para conquistar empreendedores. A menos, é claro, que os empresários e os novíssimos terrenos precariamente ofertados já estejam vantajosa e previamente marcados. Maledicências de gente de pouco berço e muito facebook, certamente. Nossa magnânima monarca, todos sabem, só tem olhos para o futuro. O seu futuro e de seus amigos, é claro.

                              Mas, apesar de suas inúmeras e prodigiosas vitórias, Poliana levaria consigo algumas - poucas é verdade - mas indigestas derrotas. Deixaria o trono com um imenso bode entalado na delicada goela real. O reinado de Poliana se consagrara como o período do bode. Nossa estrategista rainha tivera por anos o bode como seu mais fiel aliado e parceiro. Maior até que algumas antas e asnos que compunham sua corte de bobos e assessores. Colocar o bode na sala fora seu mais rentável trunfo nesses anos. Quando resolvera, em um arroubo tresloucado de tensão pré-menstrual, fechar as tradicionais rótulas do reino, enlouquecendo os motoristas por anos, ele estava lá: o seu bode. Causando irritação e críticas. E quando Poliana resolvera tirar o bicho da avenida central e liberar as rótulas, todos se curvaram a tão acertada decisão de sua alteza. Votos para Poliana! E, quando por quase todo seu reinado, fizera os motoristas sacolejarem nas incontáveis e imensuráveis crateras no asfalto, também estava a postos, o bom e velho bode real, sempre pronto a sair de cena quando a disputa em Horário Eleitoral tivesse início. Mais pontos para nossa criativa monarca. Mas, em se tratando de estacionamento rotativo, verdade seja dita: o bode arrastara Poliana pelas orelhas. Nossa rainha fizera de tudo, e conseguira, acabar com o velho sistema antigamente implantado. Era um velho modelito, como velhos e ultrapassados são todos os que antecederam nossa jovem e destemida rainha. Um novo e moderno sistema seria implantado. E assim foi. Uma lástima para o povo e para Poliana que a novíssima e moderna forma de estacionamento tenha dado com os burros nos parquímetros não funcionantes. Era tarde demais para tentar remover o bode, constata a rainha, desolada. Poliana precisaria levar o bode consigo, e acomodá-lo confortavelmente em sua sala. – Maldito bode! – indigna-se a monarca, acostumada a jogar o fedorento animal no colo do povo, mas pouco disposta a lidar com seus próprios fétidos e pré-fabricados problemas. Durma agarradinha em seu bode, Poliana. É o que lhe deseja o povo que optou por mudar.

                              Espera, esse esperançoso e pacato povo, que não tenha trocado bode por cabra.

                               

                               

                              domingo, 6 de novembro de 2016

                              Poliana, igual do começo ao fim

                              E no entardecer do reinado de Poliana e sua trupe, tudo seguia como sempre fora. A preocupação maior de nossa monarca continuava a ser propaganda e marketing. Mesmo a apenas poucas semanas de deixar o trono e entregar a coroa, Poliana tentava emplacar mais alguns milhões de recursos públicos para propagandear os seus feitos. Tudo repetitivamente cansativo e fora de prumo. Poliana, a rainha popstar, não conseguira aprender durante todo o seu espetaculoso reinado que seus súditos demonstravam claro e progressivo desinteresse pela pirotecnia de seus comerciais. Houvesse sua alteza investido mais em obras concretas e menos em banners e mídia ilusória talvez tivesse ela e seu povo mais motivos para comemorar.

                              E se era verdade que a maior praga que nossa rainha rogara sobre o reino por tantos anos, os famigerados buracos no asfalto, haviam rapidamente minguado nos últimos meses, também eram verdadeiras piadas os métodos adotados nas operações tapa-buracos. A mistura farelenta usada para preencher as crateras lembrava muito esterco de vaca. Mas o carro-chefe era a compactação do material, com os serviçais do palácio ziguezagueando pelas ruas na tentativa de acertar os pneus nos buracos recém cobertos. Hilariante. Os operários designados para essa inglória tarefa deveriam receber adicional por exposição pública ao ridículo. Mais uma invencionice da criativa corte real de Poliana.

                              Para não fugir da mesmice, as audiências públicas de sua alteza, feitas para trazer ao conhecimento público assuntos de relevância para o reino, como sempre eram cercadas de profundo mistério. Só não aconteciam na calada da noite, pois a noite era possível que o quórum fosse maior. E nesses democráticos eventos, sempre tão representativos, bastava um só questionamento para encerrar a reunião. Melhor adiar a audiência para outra data e horário, e certificar-se de que ninguém com um pouco de cérebro compareça. Participação popular em reinados socialistas só funcionam quando a plateia é adestrada. Assim nos ensinou Poliana.

                              Uma lástima que nossa rainha e sua vastíssima corte demonstrem tão pouco apreço pelo claro e o concreto. O gosto pelo duvidoso sempre sombreara seu reinado. Questão de paladar, provavelmente. Pois, nem mesmo o velho projeto de um novo distrito para as indústrias locais, insistentemente alardeado pelo time de Poliana na última disputa em Horário Eleitoral, conseguirá sair limpo do papel. Na ânsia de entregar a área, mais prometida que terra santa, antes do término de seu reinado, sua alteza abrira mão de tudo. Até da vergonha. Pretendia oferecer aos empresários o imenso terreno. E apenas isso. Nada de água, eletricidade ou esgoto. Afinal, quem precisa dessas perfumarias? O que realmente importa é a belíssima propaganda que isso tudo vai gerar. O photoshop conserta tudo, e propaganda não tem cheiro. E Poliana não tem olfato. O odor ocre das questionáveis e putrefatas decisões tomadas por nossa monarca ao longo de seu reinado devem ter lhe arruinado o aparelho olfativo. Questão de sobrevivência, sem dúvida. Seria uma temeridade ter de conviver por toda a vida com o próprio cheiro.

                               

                               

                              domingo, 23 de outubro de 2016

                              O dilema dos ratos

                              E, em Gigante Adormecido, estava instalado o pânico. As filas nos luxuosos banheiros parlamentares quase se igualavam as das emergências superlotadas do sistema público de saúde. O trânsito intestinal dos congressistas trabalhava tão rápido como rápidas sempre foram as boas intenções dessa gente ao se locupletarem com a coisa pública. O mau cheiro impregnava o ambiente, mas ninguém notava, acostumados que estavam com o próprio odor.

                              Pois não é que o homem fora realmente preso. Não aquele, o chefe maior, este ainda roía as unhas em expectativa, e dormia de sapatos sem cadarço. Quem baixara o cadeião fora outro, desta vez. O antigo todo poderoso do parlamento. Algoz implacável da decapitada Rainha Mãe. O queridinho dos coxinhas. Inimigo número um da companheirada. Os companheiros o detestavam, com absoluta certeza. Não pela sua questionadíssima moral, ou por seu fisiologismo torpe. Afinal, essas qualidades foram úteis ao grande clã estrelado por mais de uma década, e apenas convenientemente esquecidas nos últimos tempos. Ter rancorosamente mordido a corda e se voltado contra a, até então, ofuscante estrela vermelha, era o maior pecado do sujeito.

                              E a esquerdalha sequer podia comemorar com o merecido entusiasmo que o momento exigia. O homem caiu, e sua queda prometia derrubar todo Parlamento. A companheirada, a exemplo de seu messias, o Ilusionista, temia muito mais essa ruína do que a da perseguida Rainha Mãe. Este, para infelicidade de muitos, sabia falar. E se decidir abrir a boca, faltarão celas no gigantesco reino da corrupção e das jabuticabas. Melhor mandar cercar o Parlamento, transformando-o em presídio de segurança máxima.

                              E Justiça?! Ah, Justiça, criatura cruel e desumana! Aniquilara, de um só golpe, todo o discurso vitimista tão bem elaborado pela companheirada. Justiça, que impiedosamente perseguia o virtuoso e bem intencionado clã estrelado, resolvera colocar a corda no pescoço justamente do carrasco mor dos companheiros. Assim, não havia mimimi que se sustentasse. Maldita Justiça! – continuam bradando os seguidores da estrela, cada vez mais apalermados, mergulhados em contradições, como de hábito.

                              E assim, segue a vida no pitoresco reino de Gigante Adormecido. Lugar onde a bandeira da moralidade e da coerência é golpismo. E onde o roubo e a corrupção não têm cheiro, têm cor, e a sem-vergonhice escarlate é mais doce e digna que qualquer outra. Quem não concordar é golpista.

                              terça-feira, 18 de outubro de 2016

                              Trinca de reis

                              Sentados ao redor de uma mesa sem arestas estavam os três. Três antigos reis desse reino. Décadas de história em um mesmo ambiente. Um passado de divergências e disputas, agora deixado de lado. Era outro o presente. Eram outras as intenções. E os interesses. Três poderosas forças que mostraram novamente seu poder. Unidos, como temiam os adversários, e desacreditaram tantos desavisados e incautos. Vencedores. Agora, ainda mais do que antes. Era hora de comemorar a vitória. Mas, para esses velhos, as comemorações eram supérfluas, o jogo estava apenas começando.

                              - Bati! – comemora Chucrute, o ariano, com o largo sorriso que o caracterizava. – Uma bela cartada! Com uma Dama, doze pontos, derrubei outra dama, a das treze estrelas! – festeja com seu jeitão efusivo.

                              - Tinha eu, meu velho e estimado amigo, a indubitável certeza de que lograríamos êxito nesse tortuoso e competitivo caminho. Congratulações! – parabeniza o Alquimista, com voz cadenciada.

                              - Doze pontos. Foi quase uma zebra. Mas você conseguiu alemão. – acrescente Zangão - o sisudo - econômico até nas comemorações.

                              - Pois não teria conseguido sem vocês dois, meus velhos novos amigos! – exulta Chucrute, abraçando calorosamente os outros dois.

                              - Tá, tá, tá... – resmunga Zangão, desvencilhando-se do aperto. – A turnê a Horário eleitoral já acabou. Chega de tanto abraço.

                              - Me recordo como se hoje fosse, prezado alemão, do dia em que o acolhi em meus braços, décadas atrás. Você, tão jovem na época, mas tão repleto de vontades. E deveras questionador. – relembra o Alquimista, perdido em suas memórias. – Você me azucrinava tanto, Chucrute, que fui obrigado a lhe arrumar um cargo que o mantivesse algumas horas por dia bem distante de mim. Pois minha paz de espírito de outrora, hoje resultou em bons frutos.

                              - É. Questionador, beijoqueiro e teimoso. Excêntrica mistura para um rei. – constata o sisudo, rosnando de lado.

                              - Teimoso não, Zangão! – sorri Chucrute, apoiando o braço nos ombros do outro. – Sou flexível como bambu. O bambu se curva frente aos maiores vendavais, e retorna sempre e firme à posição original. Paciência e determinação. Vocês sabiam que, após plantada, a semente de bambu leva cinco anos até começar a brotar? E que a curvatura de um bambu pode chegar a...

                              - Tá bom, tá bom! – interrompe Zangão, o que prometia ser uma aula de botânica e espiritualidade Chinesa. – Você não é teimoso, é só persistente.

                              - De fato, amigo ariano, sua persistência causa inveja a qualquer de seus adversários. Como os bambus, você ficou soterrado em cinco disputas. Agora, finalmente brotou. Que seus brotos sejam tenros e rígidos, como sempre tenro é o poder, eu bem sei. – discorre o Alquimista, nostálgico.

                              - Eu tenho, amigos Zangão e Alquimista, a mais límpida e clara convicção de que como novo rei, humildemente escolhido pelo meu querido e estimado povo, precisarei atender as necessidades urgentes da população. Não posso esquecer, e não esquecerei, do pedido que me fez a senhora Stanislava Shryghinskwiscky – relata o ariano, com pronúncia perfeita. – para que fossem agilizados seus procedimentos cirúrgicos, marcados para 2023. – emociona-se o rei eleito. – Nem poderei dar as costas à pequena Maykelen Ketlhyin Pamella das Dores, que aos dez anos de idade me implorou por uma castração de seu gato Mocotó. E, lembro como se fosse hoje, e meus olhos se enchem de lágrimas – discorre Chucrute, lacrimejante. – do seu Astrogildo Ezequiel, filho da dona Secundina, neto de Primeirina, vizinho do casal Setembrino e Agostina, que são donos dos poodles Sansão e Dalila, que moram na rua...

                              - Aff! – resmunga Zangão, balançando a cabeça e deixando de ouvir a extensa explanação do Alemão – Isso é alguma doença? – pergunta ao Alquimista.

                              - É uma memória prodigiosa e invejável. E uma chatice incontestável. – responde o doutor, sucinto.

                              - Mas vai melhorar com o tempo? – indaga o sisudo.

                              - Não. Vai piorar. – prognostica o Alquimista, lacônico.

                              - Como foi que nos metemos nisso, Alquimista? – pergunta Zangão, com as mãos na cabeça, observando seu mais novo pupilo que continuava a discorrer nomes, sobrenomes e endereços.

                              - Parecia uma auspiciosa ideia na época. – reponde o outro, agora um tanto titubeante.

                              - Tomara que a memória dele seja boa também em cifras, finanças e orçamentos. – torce comedidamente Zangão.

                              - Tomara que ele não esqueça de meu apoio e minhas finanças. – sussurra o Alquimista, pensativamente.

                              - E quais serão seus próximos passos, Chucrute? – indaga Zangão, preocupado.

                              - Caro ex-rei, Zangão. Preciso retribuir a confiança e o afeto em mim depositados pelo amado povo desse reino. Se por mil anos trabalhasse não seria suficiente para pagar o carinho que recebi nessas últimas semanas.

                              - Você não vai ter mil anos, ariano. Apenas quatro. E carinho, beijos e abraços não vão resolver os problemas dos contribuintes. Trate de pensar em receitas e despesas. Em corte de gastos e na economicidade do dinheiro público. – aconselha o sisudo, objetivo como sempre.

                              - Sim, sim! – gargalha Chucrute, abraçando fortemente o outro. – Você já me disse isso tantas vezes nos últimos meses, Zangão, que mesmo que eu tivesse a memória de um peixinho de aquário, eu já teria decorado. Por falar nisso, vocês sabiam que pesquisadores australianos demonstraram que um peixe pode se lembrar de seus predadores por até um ano, e que...

                              - Tá bom! Tá bom! – corta Zangão uma outra aula, dessa vez de biologia marinha. – Espero que você se lembre de seus erros do passado, e que não torne a repeti-los.

                              - E evite, fraterno Chucrute, as más companhias de outros tempos. Sua inexorável persistência em cercar-se de amizades questionáveis já lhe renderam suficientes dissabores e derrocadas. – relembra o Alquimista.

                              - Sou, meus dois amigos, hoje, um outro homem. Amadureci muito nesses dezesseis anos. Hoje sou firme como um carvalho! – responde o outro, com seriedade.

                              - De repolho à carvalho, é uma evolução considerável. – constata Zangão, com um discreto torcer de lábios, provavelmente um sorriso de escárnio.

                              - Vocês dois são meus mais fiéis amigos, estou certo disso. – afirma Chucrute. -  E espero contar com seus conselhos durante meu reinado. Aprendi muito com vocês nesse tempo, e me dedicarei a aprender cada vez mais. Serei um aluno aplicado. Suas experiências abrilhantarão meu governo. Ao lembrar da confiança com que vocês me presentearam me surgem lágrimas nos olhos. – continua o ariano, com voz embargada e o rosto molhado.

                              - Toma isso, seu chorão! – resmunga zangão, oferecendo um lenço de tergal ao outro. A essas alturas da trajetória já estava acostumado com as frequentes enxurradas de lágrimas de seu novo amigo.

                              Depois de assoar o nariz, secar os olhos e devolver o lenço ranhento ao sisudo, acrescenta Chucrute: - Eu estava pensando ... Tenho apenas uns dois amigos da velha guarda, que talvez eu convide para compor meu reinado. Eles estão há anos longe do reino.  O Santinho me telefonou para me parabenizar pela vitória e tem insistido em voltar. Então eu pensei em...

                              - Eu lhe arranco essas orelhas vermelhas, seu alemão teimoso! – grita Zangão, em um incomum arroubo de fúria.

                              - E eu lhe aplico uma mistura química que lhe fará hibernar por mais duas décadas! – completa o Alquimista, igualmente irritado.

                              - Hahaha! – gargalha Chucrute, se contorcendo em zombaria. – Estou brincando! Só brincando! Vocês precisavam ver as caras que fizeram. – diverte-se o ariano, com o rosto rubro, abraçando entusiasticamente os dois homens e depositando beijos estalados nas calvas cabeças.

                              - Brincadeira sem graça! – reclama Zangão, desprendendo-se do abraço e marchando com passos firmes para a saída. – Quase me mata do coração! Vou ter de procurar um cardiologista. E você sabe o preço de uma consulta?! Custa os olhos da cara! – continua grunhindo o sisudo.

                              - E eu vou precisar de um calmante depois desse susto! – desabafa o Alquimista, acompanhando Zangão para fora do recinto.

                              Ainda sorrindo, Chucrute segue os amigos, abandonando também o local. O trono o espera, logo adiante. Bem sabe o alemão que a desconfiança de muitos paira sobre sua cabeça e seu reinado. Que o futuro rei, escolhido para ser a mudança, saiba honrar não suas alianças, mas o crédito que lhe foi concedido por seu povo. Honrar ao povo, é o que se espera de um rei. Que as lições do passado tenham sido aprendidas, e não apenas decoradas.

                              sábado, 8 de outubro de 2016

                              O futuro das estrelas

                              Na sede do time de Poliana, o clima era, inicialmente, de comoção. A surpresa não estava em terem perdido a disputa, mas no inacreditável placar final. Não era possível nadar tanto e morrer a sete braçadas da praia. Poucos minutos após o choque inicial, uma enxurrada de gritos e acusações tomara conta do ambiente. A derrota torna todos irracionais. Alguns mais irracionais que outros.

                              Era preciso encontrar culpados. Uns não se esforçaram o suficiente. Outros, que deviam ter ficado escondidos, se mostraram mais do que o povo gostaria de assistir. Ao invés de uma imensa e barulhenta carreata, deveriam ter batido um pouco mais de pernas nos subúrbios na véspera da disputa. As malas de dinheiro escuso não foram suficientes desta vez. Faltou pouco. Poucos trocados.

                              Curiosamente alheia ao clima tenso do local, estava Poliana. Sentada a um canto, saboreava lentamente seus adorados bombons de amarula. Os olhinhos de biscuit passeavam distraidamente pelos presentes. Observava seus bobos da corte. Alguns chorosos. Outros inflamados. Tantos inertes e alienados, como de costume. “Não sei como aturei essa gente sem vontade por tanto tempo.”, pensava a sempre dinâmica monarca, enquanto ouvia as lamúrias de seus pares.

                              - Não consegui! Não consegui! – choraminga Santo Jorge, com as mãos na cabeça, lamentando a vaga perdida na câmara de vendilhões, onde sequer chegara a esquentar a cadeira já que preferira pedalar – em ritmo lento – as midiáticas obras de Poliana. Não conseguia entender o que dera errado. Nos tempos em que fora maestro da Orquestra Partidária (OP) conquistara multidões com churrasqueiras e canchas de bocha nos festivais pirotécnicos da OP. Pois agora, com feitos mais notáveis e sólidos como ciclofaixa não conseguira agradar ao povo. Falta de consciência ecológica e espírito desportista dessa gente, com certeza.

                              - Você não tem do que reclamar! – resmunga Golesminha, cabisbaixo. – Ainda lhe resta aquela vaga na Escola de Ensino Superior que o contribuinte pagou e você nunca ocupou. E eu?! – exclama, emocionado. – O que será de mim? O que eu vou fazer? Vou viver do quê? – pergunta à Poliana, buscando uma solução para a insolúvel questão.

                              - Trabalhar, quem sabe. – reponde Poliana, placidamente, desembrulhando mais um bombom.

                              - Trabalhar? – indaga Golesminha, empalidecendo. – Trabalhar? – repete, a amorfa criatura, como se tentasse entender o significado da palavra.  – Mas eu nunca fiz isso na vida, Poliana! Eu sei falar bastante sobre exploração do proletariado. Decorei um monte dessas baboseiras para seduzir trabalhador de verdade nos tempos de sindicalista. E sei como atrapalhar a vida de quem quer trabalhar, mas... trabalhar?! – desespera-se ainda mais o homem.

                              - Você pode voltar a suas origens. Não de sindicalista, é claro. Com o desemprego correndo solto, já tem mais sindicalista parasitando do que gente trabalhando. Volta para agricultura. É a sua cara! – sugere a rainha, tentando conter o riso ao ver o pobre Golesminha empalidecer ainda mais.

                              - Pra colônia?!! – grita o outro com voz trêmula. – Plantar? Colher? Eu jamais plantei um pé de alface na vida, Poliana! Não sei a diferença entre uma mandioca e um pepino. Ou entre um porco e um gato! Meu passado de homem do campo era só para fazer bonito nas propagandas. Eu só sei plantar ideologias para colher dinheiro fácil. É o meu fim! – suspira.

                              - Não se menospreze, Golesma. Sua perícia em manejar supercola é reconhecida em toda região. Dizem por aí que você jamais colou os dedos. Uma façanha! Toda essa habilidade deve lhe credenciar para algum emprego, não é? – acrescenta Poliana, sarcástica.

                              - Eu sei como você está se sentindo, companheiro. – interrompe outro ortodoxo socialista, soluçante. Com o corpanzil embrulhado em uma imensa bandeira vermelha, secava as lágrimas e assoava o nariz na camiseta de Guevara. – Os reaça tomaram o poder! É o fim de um sonho. Mas não podemos nos submeter ao domínio opressor do capitalismo! Essas mãos calejadas de abanar bandeirinhas, e esse corpão sustentado com fast food e Coca-Cola pagos com dinheiro público, jamais servirão a um patrão! Não vai ter trabalho, vai ter luta! – grita com o punho erguido.

                              - E você vai viver de quê? – pergunta Golesminha, empático com a situação do outro.

                              - Da aposentadoria da mamãezinha, é claro. Só aceito dinheiro se for do Estado. Preciso ser fiel as minhas convicções.

                              - Muito coerente. – acrescenta Poliana, lambendo os dedos lambuzados de chocolate. – Ao invés de vocês ficarem choramingando, seus inúteis, deviam analisar as estrelas. – alerta sua alteza, em tom de impaciência. – Como vocês só sabem viver pendurados em carguinhos, deviam, nessas alturas, se preocupar com o desempenho de nosso clã em outros reinos. Quem sabe sobra alguma boquinha para algum de vocês em outros cantos. Mas é melhor se apressarem. Com a derrocada de nossa estrela, faltarão tetas públicas para tanto companheiro desempregado. Quem chegar primeiro leva. – profetiza a rainha, provocando a imediata reação da companheirada que em bando correram para a porta de saída, se acotovelando na tentativa de atrapalhar uns aos outros. Não faltaram chutes nas canelas e dedos nos olhos. Os companheiros, todos sabem, sempre lutam o bom combate.

                              Depois de quase esvaziado o recinto, Poliana corre novamente o olhar pela imensa sala. O chão coberto de bandeiras rasgadas e pisoteadas. Os tons pastel não enganaram suficientemente o povo, constata a rainha, abaixando-se para pegar uma única e solitária bandeira vermelha. Caminhava para a saída quando uma velha matriarca do grande clã estrelado lhe indaga: - E você, Poliana, qual será o seu rumo agora?

                              - Seguirei, companheira, o caminho que eu mesma tracei. Vou me dedicar as causas ecológicas e autossustentáveis, agora. Ideologias mudam ao sabor do vento. Foi bom e útil enquanto durou. Boa sorte para vocês! Talvez nos reencontremos algum dia. Vai depender do vento. O último que sair apague a luz. – despede-se a visionária e astuta Poliana, abandonando o grupo, e jogando displicentemente a bandeira vermelha no lixo.

                              “A servidão dos tolos sempre serve aos espertos.” – conclui a ardilosa Poliana, eterna rainha da situação.